NI 010/83: ensaio Renato Lessa

NI 010/83
Renato Lessa

A sigla, um tanto enigmática, adotada no título significa: Nota de Instrução 10, emitida em 1983. Ainda assim, penso, nenhum esclarecimento à vista. Trata-se, na verdade, de uma norma interna, produzida pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, para definir as condições concretas e precisas nas quais o uso da força, com desdobramentos letais prováveis, pode legalmente ser praticado pelos membros daquela corporação. A norma comemorou seu 25o aniversário, no dia em que policiais militares mataram uma criança de três anos, em uma rua do bairro da Muda, na zona norte carioca.

A cena do crime é conhecida. Não se pode dizer que seja inédita. Na perseguição a meliantes – que escaparam ilesos –, uma equipe da Polícia Militar resolveu varar com 17 tiros um automóvel parado, no qual estavam uma mulher e seus dois filhos e que acabara de dar passagem ao bólido das supostas forças da ordem. João Roberto, com 3 anos, foi alvejado na cabeça e na altura do quadril. Hospitalizado, teve morte cerebral quase imediata, o que levou a família a autorizar o desligamento dos aparelhos. João Roberto foi enterrado, sem a presença de qualquer autoridade, com a fantasia de Homem Aranha, com a qual comemoraria, alguns dias mais tarde, seu quarto aniversário.

Os policiais foram definidos pelo governador do estado como “débeis mentais”, em generalização indevida, posto que há débeis mentais inofensivos. A associação da classe, se a houver, deveria protestar pela atribuição injusta. Muito melhor, no capítulo da designação e da percepção que realmente está a se passar, fez o pai de João Roberto, ao chamá-los simplesmente de assassinos. A língua ajuda aos que querem dizer as coisas sem subterfúgios. Paulo Soares, o pai, por muito pouco, não perdera a família inteira.

Pelo que estabelece, a norma 010/83 chega a ser idílica, pela parcimônia e pelos cuidados que apresenta como cláusulas pétreas para o uso da força por parte dos encarregados da segurança pública. Uma polícia escandinava poderia adotar os procedimentos ali fixados. Na verdade, a origem da norma evoca a figura digna do Coronel Nazareth Cerqueira, comandante da Polícia Militar na altura em que foi concebida e personagem comprometido com os direitos humanos e com o projeto, ao que parece inglório, de tornar a polícia uma instituição civilizada. Assassinado no Rio de Janeiro, há alguns anos e em circunstâncias confusas, o coronel Nazareth foi poupado de ver seu nome atribuído, de modo inapropriado e ofensivo, ao equivalente carioca da Rota paulista.

Há algo de escandalosamente muito errado quando, após saber o que define a norma 010/83, deparamo-nos com o fato de que ela pretende regular o comportamento de uma das mais violentas e letais polícias do planeta. A norma, na verdade, vem sendo revogada pelos fatos, digo, pelas mortes. No ano passado, foram mais de 1300, as praticadas por policiais, no Rio de Janeiro, em situações por eles mesmos definidas como “autos de resistência”. “Autos de resistência” são primo-irmãos dos “desacatos à autoridade”. Ambos são ocorrências cuja tipificação depende exclusivamente do que dizem policiais supostamente desacatados e aos quais se teria oferecido resistência armada. Só países indigentes no que se refere ao respeito aos direitos humanos e ao controle de suas forças policiais toleram a presença de tais institutos em seus sistemas legais. Como vimos no episódio recente do Morro da Providência, o suposto desacato à autoridade é passível de pena de morte. Difícil evitar a sensação de que são operadores de um imparável e selvagem processo de faxina social.

Diante do estado irreparável das forças de segurança no estado, seria de bom alvitre que cada cidadão recebesse uma cópia da referida nota de instrução. A leitura poderia ajudar e encarar o fato que a cada dia se impõe com evidência cada vez maior: o processo de auto-destruição do sistema de segurança pública no Rio de Janeiro. As evidências são legionárias: autos de resistência, desacatos à autoridade, achaques a motoristas, extorsões, etc… O mote surrado dos casos isolados acaba por configurar uma imagem inovadora: a de uma instituição na qual a maioria de suas atividades se apresenta como um conjunto de casos isolados. Há um problema cognitivo básico e de déficit de elucidação. Pelo visto, está a ocorrer uma triste associação entre sofrimento e elucidação.

Ao que parece, os que sofrem acabam por ser elucidados. Sobre eles já nada podem fazer os mantras da animação da República ou as vozes dos especialistas que insistem em dizer que tudo decorre da falta de treinamento dos policiais. A clareza pungente do que disseram as mães dos rapazes martirizados no Morro da Providência e a precisão dos pais do menino João Roberto estão a indicar que tocaram em uma dimensão crucial do chamado mundo real. Ao designar os policiais como assassinos e ao recusar as desculpas oficiais, os pais do menino João Roberto, por exemplo, a um só tempo mostram o lugar do real e recusam a oferta que lhes foi dada de sublimação. O mínimo a fazer é reconhecer o direito que têm de escolher com quem compartilhar o sofrimento. Querem saber algo a respeito do estado da arte da segurança pública no Rio de Janeiro? Perguntem a eles. Não há elucidação mais direta e cabal.

A despeito disso, a retórica da falta de treinamento segue a pontificar. Se for o caso de incompetência, digamos, técnica, cabe a pergunta: porque não praticam formas de falta de treinamento com resultados menos letais? Falta de treinamento, por exemplo, para os assassinos de João Roberto, poderia ter significado tão somente terem sido incapazes de prender os meliantes, que acabaram por fugir, e nada terem feito com relação ao veículo “civil” que lhes deu passagem. Em outros termos, há pelo menos duas dimensões que precedem o tal treinamento: a da crueldade e a do apego visceral à ilegalidade. Supor que policiais truculentos agem de modo violento e ilegal por falta de treinamento é pedir para integrar a classe aludida pelo governador do estado ao referir-se aos assassinos da Muda. Quando negociam o relaxamento de prisões, achacam motoristas infratores ou integram grupos de milícia o fazem porque foram mal treinados?

O fato é que a “falta de treinamento” sempre produz efeitos malignos e nunca benignos. Isso é suficiente para supor que a malignidade é uma dimensão anterior. Tal anterioridade tanto pode transformar uma eventual iniciativa de treinamento em algo inócuo, como pode tornar o próprio fato da ausência de treinamento na principal forma de treinamento. É evidente que a capacitação dos policiais militares é indigente. O problema todo é que, para além de fatores limitadores de natureza operacional ou orçamentária, parece haver uma orientação política mais ampla e difusa que inscreve a operação das forças de segurança em um campo marcado por imensa informalidade e por um apego heterodoxo à lei.

As dinâmicas da crueldade e da pilhagem não são estranhas a esse universo. Sua dispersão torna indeterminados os limites daquilo que pode ser infringido a um ser humano. É nessa tensão entre as dinâmicas de crueldade inscritas nas forças da ordem com a vida social que se inscreve hoje no país um dos mais poderosos limites à vida democrática. O desafio que se apresenta é imenso. Mais do que saber como deter o processo de autodestruição das forças de segurança pública importa em buscar uma saída para eliminar o risco da morte violenta que vem do alto.

Renato Lessa é Professor Titular de Teoria e Filosofia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense. O texto foi publicado no Caderno Aliás, do jornal Estado de São Paulo.

a canela e as minhas formigas

a canela e as minhas formigas

(I)

invente um corpo
carregador de poemas
e saberá.
porque se me encurvam
as costas.

(II)

escrever poesia ao
ar livre. é como
levar mordidas de
formigas na canela.
olha-se o papel:
- ai mundo.
sente-se a mordida:
- ai vida.
sente-se o estalido:
- ai osso.
o coração, suas batidas:
- ai vida.

(III)

arruma alguma coisa
pra fazer. com a morte
me entendo Eu.

cidade de deus

cidade de deus

a santo agostinho e Portinari

de todo casebre que se preze.
e como se prezam os casebres.
estica-se uma linha bem fina.
e como se estica.
na ponta da linha sempre uma pipa.
e como se pipa.

o casebre solta a pipa?
a pipa solta o casebre?

de toda pipa que se preze.
e como se prezam as pipas.
estica-se uma linha bem fina.
e como se estica.
na ponta da linha sempre um casebre.
e como se casebre.

a pipa solta o casebre?
o casebre solta a pipa?

todo menino que se preza.
e como prezo aos meninos.
estica duas linhas:

uma para pipa.
outra para o casebre.

ou a pipa solta o menino.
ou a pipa solta o casebre.

menos pertenço

quanto mais olho
mais o mundo se encaixa.
as formas do mundo
se tornam harmônicas.
quanto mais se fixam os olhos.

para fazer diferente. quanto mais
olho. tento deixar de olhar. certa catarata.
para que as coisas não se encaixem.
porque quanto mais olho.
menos pertenço.

quanto menos olhos.
mais caibo no mundo.
mais o mundo cabe em mim.
quanto mais olho.
mais o mundo se pertence.
e menos me pertenço.

o mundo que me pertence?
um mundo que despertenço?
um mundo meu? um mundo outro?
um mundo meu?
um mundo seu?

O Teatro Mágico: crônica política e dramaturgia

O Teatro Mágico: crônica política e dramaturgia

Minha rotina envolve duas cidades: Rio de Janeiro e Taubaté. Nas férias de final de ano recebi convite para assistir a um show. Raramente sou convidado para a ir a shows. Então, convencido, de alguma forma estou sendo incorporado pelo imaginário de pertencimento à juventude, aceito prontamente o convite, e com presteza, de um velho rabugento, coloco-me a pesquisar sobre a investida: O Teatro Mágico. A virtualidade das minhas experiências literárias acaba por dar espaço às minhas rabugices: lá fui eu pesquisar.

Não preciso dizer que o convite fez sentido porque estava, na minha eterna rotina, na cidade de Taubaté. O que fez com o nome da trupe assumisse, aos meus ouvidos maldosos, o significado lírico, e não a consubstanciação da maldade sexual, com ares de ternura, que provavelmente seria evocada caso o convite fosse feito no Rio de Janeiro. O Teatro Mágico, no Rio de Janeiro, faria-me pensar no circo Trombine aportado na Avenida Presidente Vargas sob ecos dos sons sofríveis dos animais e das conversas ruidosas dos moradores de rua, regados a cola de sapateiro. Peço que não leiam de modo a evocar o grande juiz moral que temos em nós, mas tão somente, e dessa vez, o esteta agônico que sempre deseja sair e pintar as paredes.

Convencido de que não encontraria palhaços malvados, torturadores de animais; passei a me arrumar para sair. Pois, da onde venho, é relevante que a arrumação para sair, seja para sair. De modo que é bastante prudente ter no guarda-roupa as roupas de sair separadas das de não sair. Para evitar desventuras cósmicas, tão explicadas por Freud. Fui arrumado, penso que de blazer, da gravata não precisei, e sapatos escuros, a minha companhia também estava muito arrumada, o que me deu uma certa segurança acerca de estar fazendo certo com a vestimenta. Mas a segurança durou muito pouco. A minha companhia não fazia idéia do que se tratava. A ela o nome O Teatro Mágico apenas evocou reminiscência cândidas, próprias ao pessoal do interior de São Paulo, não adulteradas pela experiência carioca. O que fez com que a minha pesquisa me transformasse em autoridade intelectual. Recitei um dos refrões mais badalados. Como quem recita Maria Rilke. Apesar do pânico interno, de quem caminha para o invisível, de quem se despede da evidência, por fora acredito que assumi os rumos da autoridade, afinal de contas fiz do O Teatro Mágico o meu Maria Rilke.

Ao chegar na praça dos espetáculos, surpresa. Como diz o velho Freud a angústia é antecipação do desamparo. A fórmula: a angústia é a antecipação do horror do desamparo, parece-me um pouco excessiva. Como se pudesse haver desamparo sem horror. Michael Kahn diz bem essa idéia. A angústia tida antes de entrar na caverna do leão, de certa forma, sinaliza que na caverna: a coisa vai ser pior. Pois ao ver a praça, a angústia mostrou-se justificada. A boca do irritado animal era muito mais preenchida de dentes do que jamais poderia imaginar. Uma multidão de adolescentes ensandecidos. O que me fez pensar: - Onde foi parar aquela boa época onde as crianças tinham medo de palhaço? Onde circo era um lugar para que os adultos assistissem aos medos dos pequenos. Onde foi parar o pavor do grotesco?

Pois bem, as crianças não temem os palhaços. No caso, do interior de São Paulo, a utopia do palhaço não mais esconder, no sorriso, a dor mais do que tenebrosa, parece que foi realizada. Mas ainda temos a Avenida Presidente Vargas. Com os palhaços maus de verdade. Entrei numa fila. Conversei sobre a história do circo. As representações pictóricas do palhaço. Até que chegou a minha vez: - Aqui está senhorita, meu convite e o da minha companhia. Ao que a senhorita respondeu: - Não, essa não é a fila para entrar, mas para pintar o rosto. Eu disse: - Pintar o que? Ao que a senhorita insistiu: - Para pintar o rosto. Mas, nessas situações, eu sou um pouco analítico: - Mas por quê, senhorita, eu haveria de pintar o rosto? Perguntas analíticas fora de hora, via de regra, sugerem respostas belíssimas: - Ah, porque é divertido. Não me rendi por inteiro, não é demais dizer que minha companhia deixou-se pintar o rosto quase todo, o que tornou a minha conversa sobre a história das representações circenses, um pouco tola: - Então, dê-me um nariz vermelho, de plástico, e não falamos mais nisso. Com o meu nariz vermelho, por assim dizer, no nariz. Precisei correr, com a minha pintada companhia, para a fila correta, a qual, infelizmente, virava o quarteirão. Quando vi um espaço aberto, logo julguei que fosse o final da fila, e coloquei-me a tentar retomar a conversa, sobre o circo, dessa vez, um pouco mais prático, evocando o porquê da pintura do rosto. Uma moça um pouco acima do peso, atrás de mim, querendo participar de minha exposição, e com vestimentas hippies, argumentou: - Ô palhaço, por acaso deseja furar fila? Não vem se mostrar o ardiloso. Ela argumentou do jeito dela. Percebi que a moça estava certa, reconheci o meu engano, sob protestos de mil desculpas, e segui para o final da fila, mais três quarteirões à frente, pelo que pensei: - Mal comprei um nariz vermelho e já fui sindicalizado. Deve ser a rapidez do mercado da qual tanto falam.

A fila até que andou rápido. A minha companhia começou a tomar lições, com um rapaz bem apessoado, sobre como se equilibrar em pernas de pau. Eu refleti, solitário, sobre a possibilidade de me filiar ao sindicado dos palhaços. E, possivelmente, disputar alguma posição de liderança. Ombudsman dos palhaços, talvez. Até que entrei no auditório. Na verdade uma quadra de futebol. Sentei na arquibancada. Cruzei as pernas. Esfreguei as mãos. Esperei o show. Luzes. Som. Palhaços em polvorosa. Adolescentes em polvorosa. O mundo em polvorosa.

Aqui, a percepção política deve começar. Porque, julgo, um dos temas políticos mais relevantes é a configuração do espaço público contemporâneo. Para tanto, é importante convencionarmos significados para espaço público e para o contemporâneo. Espaço público é a invenção grega de que o confronto de opinião deve determinar os rumos da liberdade. Os espaços físicos, fundamentais na experiência grega, não esgotam o sentido do espaço público, trata-se de uma das dimensões do espaço público, a sua atualidade, mas dizê-lo virtual não abriga qualquer problema. Pois atualidade do espaço público é o confronto das opiniões, as dimensões sonoras, as paixões, a física do espaço e a conquista do auditório. A virtualidade é, podemos dizer, o efeito de convencimento no futuro, as dimensões possíveis da liberdade e a política da configuração do espaço público por vir, isto é, a configuração do mundo possível. A atualidade é a dimensão conflituosa do presente, e a virtualidade, a dimensão de futuro, contida nas tensões opinativas. Para o termo contemporâneo precisamos de um outro conjunto de convenções. O contemporâneo é delimitado por comparação com o moderno e com o pós-moderno. A modernidade é definida pelo o império de formas laicas. Da mesma forma, como a idade média é definida por formas teológicas. Com efeito, a pós-modernidade é definida pelo desafio às formas. No contemporâneo o questionamento sobre a ausência ou presença de formas deixa de fazer sentido. Assim, formas políticas, formas poéticas, formas visuais, formas musicais etc. não mais afastam o debate sobre os fenômenos. Por certo, se o moderno é a constituição de álibis laicos para as formas, o pós-moderno é o desafio a esses álibis e o contemporâneo: a experiência sem álibis. Com efeito, o debate sobre a configuração do espaço público contemporâneo constitui o questionamento sobre os modos de constituição da liberdade, de modo opinativo, na perspectiva de que as formas não servem de álibi para o estancamento das discussões. Uma forma segura não vale uma vida. Uma idéia não vale uma vida. A expulsão dos comportamentos irrefletidos.

A performance artística de O Teatro Mágico instaura um novo tipo de configuração da vida social, bastante interessante. Tudo leva a crer que a maquina de guerra do O Teatro Mágico logo será capturada pelos modos tradicionais. Mas o fato de que a investida foi feita é muito significativo. A máquina de guerra, neste caso, é constituída por um pleno desapego as formas tradicionais do entretenimento para adolescentes. As músicas são longas ou curtas demais. O cantor principal se dá à liberdade de declamar poemas longos. Muito difíceis de serem compreendidos pela qualidade do som, pelo menos do lugar onde assisti. Existe a mescla de elementos não sincrônicos. Ao mesmo tempo em que se canta um refrão, uma moça faz desvarios naquelas cordas paralelas de ficar girando, palhaços correm de um lado para o outro, pessoas andam pelo palco; toda a constituição cênica de espetáculo é intensiva. O espetáculo é mais sentido do que narrativa. Para além dos elementos estéticos, deve-se dizer que o grupo faz as suas próprias teias de sobrevivência mercantil: os eventos são anunciados pelos interessados, os discos são independentes, o novo trabalho pode ser copiado pela Internet e os elementos de identificação pública com o grupo (camiseta, boné etc.) são produzidos de modo autônomo. O conjunto de elementos contra-corrente produz inventividade estética fora do comum. Devemos perceber para além do juízo de gosto, porque gostar ou não, diz respeito a elementos de refinamento do gosto e de adesão a formas, não podemos negar que alguma coisa de relevante acontece com o movimento iniciado pelo O Teatro Mágico. A bossa nova, a tropicália, os doces bárbaros etc. todos passam pela possibilidade econômica vertical de seus empreendimentos. Com ou sem ditadura. O Teatro Mágico produz possibilidade econômica horizontal. Aliado a isso o fato de que o show é expressivo e muito pouco linear. Penso que existe um novo tipo de configuração do espaço público, cujo movimento, deverá ser aprimorado pelos jovens artistas. A contra-corrente pode ser acorrentada. Mas esse é o desafio enfrentado por toda máquina de guerra.

Então, saí do show. Da minha companhia não sei dizer. Penso que foi seduzida pelo equilíbrio complicado das pernas de pau. No bolso da minha camisa, tateio. Percebo que ainda tenho o meu nariz de palhaço. Mas se na entrada tudo parecia bastante angustiante, na saída, fui acometido por uma intensa sensação de falsidade. Não sabia julgar se as encenações tinham acabado, ou se, de alguma forma, o teatro mágico continuava, porque a despeito do que acontece com outros espetáculos, onde as cortinas caem, as luzes acendem e os artistas somem, nesse caso, tudo permaneceu muito parecido, os adolescentes ainda estavam com seus narizes pintados, malabaristas ainda se arriscavam com fogo, toda sorte de pirotecnia e de pirogonia. Um pequeno anão me perguntou as horas, e inclinei o corpo, um pouco mais, para responder: – Meia noite e quinze. Eu disse. – Hora de criança estar na cama. Respondeu-me o anão.

Assim, a pergunta surge. O teatro acabou ou não? A dramaturgia possui qual extensão? A extensão da dramaturgia e o início ou fim do teatro não precisam de um exemplo. O Teatro Mágico é usado para responder essas duas perguntas. Mas por que não precisa de exemplo? Porque são perguntas radicais. Perguntas que colocam em evidência a imagem do mundo, a qual aderimos. Então, devemos pensar o seguinte: a nossa imagem do mundo consegue lidar com esse tipo de evento, onde o início da dramaturgia e o seu término, a despeito do acender ou apagar das luzes, não podem ser determinados? No mínimo o desconforto é bastante intenso. – Mas por que não troca de roupa para poder ir para casa? Pergunto ao simpático anão, aquele das horas. – Não sei. Acho que é a roupa que uso todos os dias. E você não troca de roupa, para ir embora? Retrucou o pequeno interlocutor. – Você é algum tipo de provocador, ou gosta dos jogos do coelho da Alice? Retruquei. – Não, só pensei que a sua camisa não combina com a calça. Devolveu-me, merecidamente, o anão.

A imagem do mundo onde a dramaturgia não tem fim, onde a dramaturgia está em todos os momentos, em todos os cantos, rivaliza com a imagem do mundo onde a dramaturgia é evento de mímesis ou catarse. A imagem de mundo onde a dramaturgia é um evento determinado é próxima da clareza. Mais ou menos quando um inglês determina que um estrangeiro faça-se entender: Make yourself clear. Um mundo onde os padrões de compreensão não são muito angustiantes, muito embora, a enunciação seja sempre um pesadelo. Um mundo de fronteiras entre as boas enunciações e as enunciações obscuras. Um mundo mais compreensivo e narrativo do que expressivo. Do outro lado, temos uma imagem de mundo nova, muito embora possa ser encontrada no dito de António Vieira: “se achar que falo escuro não mo tache, acenda uma candeia no entendimento”. Os mal intencionados podem julgar essa nova imagem o império do sem sentido, onde habita o obscurantismo, mas o que está em questão é a imagem expressiva do mundo. A clareza pode ser uma das expressões mais interessantes do mundo. Mas a imagem do mundo como expressão, não comporta, sob conflito lógico, a existência de fronteiras, mas apenas de fronteiriços. O fronteiriço é o espaço indeterminado, o qual sofre a ação de muitas forças, mas não se pode dizer qual é o pertencimento.

Cabe dizer, o fronteiriço angustia no enfrentamento entre mundos, ao cotejarmos imagens de mundo, colocarmos mundos um do lado do outro, o mundo das fronteiras aparece como de fácil compreensão, e pouca angústia, a descrição e a compreensão são amplamente convencionadas, até que algum tipo de expressão surge, nesse momento, no mundo das fronteiras, as angústias afloram de modo agressivo, questões surgem: (1) e se a expressão não for compreendida? (2) E se a expressão produz um novo mundo? (3) O que acontece com o antigo, se suas formas são atravessadas? Nesse momento, o mundo de fronteiras estabelece soberanias, e demarca territórios, nesse momento, o mundo de fronteiras inventa: o nacional, o estrangeiro e o apátrida. Formas para impedir a formação da angústia proveniente do aparecimento do fronteiriço. O fronteiriço angustia porque não é nacional, ou estrangeiro ou apátrida, mais além, o fronteiriço angustia porque as formas de demarcação, para ele, não fazem sentido. Por isso, o fronteiriço é sempre um espectro no mundo das fronteiras. O que dá, ao mundo das fronteiras, o tom de um eterno caça as bruxas. As casas são parecidas, os homens são parecidos, as mulheres parecidas, os desejos parecidos, os destinos etc. Quão mais semelhantes os caracteres do mundo, mais fácil é perceber o fronteiriço. Às fronteiras interessa o início e o fim da dramaturgia, para que ninguém seja enganado, o início e o fim, domados, da expressão. Aos fronteiriços apenas interessa fundar expressões. Na batalha de mundos, entre fronteiras e o mais além; a máquina de guerra fronteiriça pode ser capturada de muitas formas, a melhor delas é provocar o desejo de identidade.

Cesar Kiraly
(http://cesarkiraly.wordpress.com)

O que é filosofia: Claudio Ulpiano

http://www.claudioulpiano.org.br/imagens/perfil_claudio_bio.jpgCurso O que é a filosofia?

1ª Aula
Querer o tempo e o intempestivo para atingir a verdade não é ser rival da filosofia, todavia é ser rival do que na filosofia assinala a seleção dos pretendentes, a Odisséia filosófica, a subserviência ao tríptico platônico - o Modelo, a cópia e o simulacro. Se a teoria das Idéias é um princípio para os critérios da seleção, constituindo a forma da verdade como demonstrando as qualidades do pensador que ama e quer esta verdade, não basta sobrepô-la ao fluxo heraclítico, mas dizê-la um novo tipo de transcendência, diferente da transcendência mítica, não obstante o mito do verdadeiro amor, do verdadeiro político e do verdadeiro delírio. “Toda a reação contra o platonismo é uma restauração da imanência em sua plena extensão”. É uma boa metáfora dizer que Nietzsche e Proust são rivais, porque este rivaliza com a filosofia, e aquele com os filósofos: ambos abandonam o método, que caça a verdade para ir de encontro a forças e signos, que substituem o consenso, este o frágil rival do conceito que aparentemente reequilibra a equivocidade da linguagem, na cadeia unívoca de um raciocínio - a univocidade do significado: dos termos das premissas de um silogismo - “o homem” jamais se transformará no “não-homem”, pela simples passagem proposicional ou judicativa, conforme o escândalo sofista. Não é a questão de Nietzsche e Proust, a das relações textuais dos termos, que recupera a boa vontade e o bom senso. Muito mais, é ir além dos significados e dos valores estabelecidos.

A filosofia é o melhor, no melhor dos mundos, em um mundo que pode ser desenvolvida a potência de criação; e não precisa da lei, sequer para subordinar-se ao Bem, ou de outro modo, não precisa do Bem: o melhor não é imitar. E a aliança de Nietzsche e Proust para contestar a imagem dogmática do pensamento, demonstra que a representação pode ser vencida.

2ª Aula
Um grande filósofo é aquele que cria novos conceitos: estes conceitos ao mesmo tempo ultrapassam as dualidades do pensamento ordinário, dando às coisas uma nova verdade, uma distribuição nova, um recorte extraordinário. O nome de Bergson permanece ligado às noções de durée, de memória, de élan vital, de intuição. Seu gênio e sua influência avaliam-se pela maneira como tais conceitos se impuseram, são utilizados, entraram e permanecem no mundo filosófico. Mas há uma diferença entre a filosofia e a ciência, caso contrário não se justificaria a existência da filosofia, desde que a ciência se tornou adulta e integrada em seus próprios propósitos. A diferença é a intuição, que leva a filosofia além de uma postura crítica como reflexão sobre a relação que a ciência tem com as coisas. A filosofia pretende também uma relação direta com as coisas. Chocam-se aqui a inferência, como instrumento da ciência e a intuição como método da filosofia. O método de Bergson visa a eliminar os falsos problemas. Compreendemos que estamos envolvidos com um modo de pensar que não reproduz a idéia de verdade na filosofia clássica. Não se trata de encontrar, mas de criar. O falso problema envolve o pensamento, do mesmo modo que em Espinosa a superstição envolve o pensamento. Fazem-se presentes as idéias de direito e de fato. Algo semelhante a um a priori e um a posteriori. É o mais explícito confronto que a obra de Deleuze faz com a representação e seu séquito, erro, recognição, senso comum e bom senso. Junto com negativos de direito, começa a aparecer o uso transcendente das faculdades como a disjunção das faculdades. As faculdades não dependem mais do senso comum: permitindo que surjam a intensidade, como ser do sensível; o imemorial, como ser em si do passado, por exemplo, a memória involuntária em Proust, que nada tem a ver com uma síntese passiva, mas sim com o uso transcendente e disjunto das faculdades; com uma diferença absoluta para Bergson em relação ao ser em si do passado, porque a memória involuntária altera a compreensão da arte em Proust, pois esta memória ontológica resgata o ser em si do passado e o revela como fato da vida e não como algo erguido pela arte, como o fará e o faz o pensamento involuntário, movido pela força do signo, que o força, ao pensamento, pensar. Uma nova imagem do pensamento se constitui: e com ela a profusão de conceitos criados por Deleuze: estamos no melhor dos mundos.

A obra de Deleuze tem dois começos, um, no eterno retorno do presente eterno dos estóicos; outro, no fundo do espírito ou na imaginação delirante de Hume. Não são gratuitas as escolhas dessas duas filosofias. Com Hume faz-se clara a diferença subjetiva como a aparição da generalidade. Com os estóicos, a ação e a paixão. O hábito é o resultado da contemplação contraente em Hume. A vida orgânica é o resultado do presente estóico. O bom senso está na Lógica do Sentido, mas também está na Diferença e Repetição. Opõe-se ao paradoxo em ambas. Nos estóicos o que surpreende são os acontecimentos. Em Hume são os princípios da Natureza humana sucedendo a interpenetração das imagens livres. O presente no tempo, passado e futuro relativos. Mas com Bergson, conforme acima foi feita uma espécie de avant-première, o passado se torna absoluto e em si, abrindo uma nova síntese do tempo. Mas neste texto o destaque é dado não só ao soberbo pensamento estóico, mas também a Hume, para a constituição da primeira síntese do tempo.

Que se diga que há uma ontologia em Hume, e se sim, e sim, logo emerge um tipo de entidade: a percepção que apreende as impressões e as idéias, que se prolongam umas nas outras, umas pelas outras. As idéias reproduzem as impressões, com uma variação quantitativa de força e vivacidade: a repetição física e a diferença no espírito. A anterioridade da impressão e a posterioridade da idéia é um absoluto e uma banalidade em Hume, como a distinção de vivacidade e força entre as duas. Mas em que lugar estão as impressões e as idéias? Evidentemente em lugares diversos; a possível causa da diferença de força. Mas a idéia de causa tem apenas um valor metafórico, para afirmar dos lugares diferentes em que se encontram as impressões e as idéias, nada causa as idéias, elas são reproduzidas na imaginação: “a produção da idéia pela imaginação é uma reprodução da impressão na imaginação”.

Com Kant, a explícita definição de faculdade: é que nela está um princípio de atividade. A faculdade é uma possibilidade de ação. A faculdade se concebe como oposta à receptividade. Em razão desta definição, que a faculdade designa um princípio de atividade, não se emprega este nome, - faculdade -, para a sensibilidade - que seria pura receptividade. E sem maiores questões neste texto, receptividade e passividade não são a mesma coisa. Mas é através desta idéia de passividade que poderemos encontrar algo como a imaginação em Hume, que não é uma faculdade, nem uma receptividade - e sim passiva; sem forma e sem função, sequer um lugar ou uma potência aristotélica. “Continuamente, Hume afirma a identidade do espírito, da imaginação e da idéia”, e se o espírito, a imaginação, é idêntica à idéia no espírito, logo o espírito não é uma faculdade e muito menos uma receptividade, pois para haver uma receptividade deveria pré-existir um espírito, que na verdade é inventado pelo movimento sem constância e sem uniformidade das idéias. O espírito é um determinável e não um determinante, ainda que contemplante, pois a percepção e a impressão parecem comprimir-se constituindo o espírito, e deste, do espírito, saindo as sínteses passivas que dão origem ao hábito, e isto explica o enunciado: a repetição nada muda no objeto que se repete, mas muda alguma coisa no espírito que a contempla (a repetição). Algo como a passagem do estado de coisas para o acontecimento - alguma coisa que não é físico nem psicológico, ou lógico como diziam os medievais a quem Deleuze está tão ligado. Algo como a passagem de um designado para um sentido; de Vênus para Estrela da Manhã e para Estrela da Tarde. É preciso estar claro que espírito e sujeito não são a mesma coisa: que o primeiro é a força do tempo puro e que o segundo, o sujeito, constitui-se pelos princípios da Natureza Humana, um resultado da criatividade e da produtividade da Natura Naturante. “O tempo é subjetivo, mas é a subjetividade de um sujeito passivo”. Toda obra de Alain Robbe-Grillet é atingir aquém da síntese ativa, conforme o uso comum das faculdades, o domínio das sínteses passivas - e por causa disto, seu trabalho, teórico, na literatura ou no cinema, conjuga-se convenientemente com a obra de Deleuze. Como exemplo “DJINN - uma mancha vermelha no pavimento estragado”, que servirá como exemplo de um texto que abandona o tempo linear e ideológico, para mergulhar nos múltiplos e ilimitados corredores de um labirinto sem começo nem fim, o próprio tempo, em sua expressão, força e forma puras. E este texto é uma mostra da ressonância que fazem a filosofia e a arte, que com a ciência, forçam o pensamento a produzir conceitos, afetos e proposições.

3ª Aula
A mônada é um espelho do universo; como um espelho, que ao ser apontado para um objeto, o reflete e o reproduz. Mais do que isso, ou diferente disso: a mônada, finita, aquela que tem limites, contém dentro de si o infinito do mundo inteiro. Ela não é um sujeito que tem à sua frente objetos, o mundo está contido nela, e ela o expressa - o mundo não existe fora das mônadas. Aprendemos que o pensador das mônadas não prolonga a razão clássica, ao contrário, a atravessa, como uma imagem diferente, como uma nova imagem do pensamento. A idéia de finitude da mônada e da infinitude do mundo, mundo incluído na mônada, concebe um fundo para a mônada, fundo sombrio. Cada mônada traz consigo o infinito do mundo inteiro e apenas uma pequena parte lhe é clara - são os relevantes, os clarões, “Na maior parte dos casos, a alma contenta-se com poucas percepções claras e distinguidas: a alma do carrapato tem três percepções claras, apercepção da luz, apercepção olfativa da presa e a apercepção táctil do melhor lugar, e todo o resto na imensa Natureza, que o carrapato todavia expressa, não passa de aturdimento, poeira de pequenas percepções obscuras e não-integradas”. É preciso que duas partes heterogêneas entrem numa relação diferencial para determinar uma singularidade: dy, azul sobre dx, amarelo = verde. Sem pausa, sentimos o imenso universo dentro de nós - do mesmo modo que ouvimos o murmúrio de ondas ou o murmúrio de vozes, sem relevância. Essas relações diferenciais que tornam o verde um distinguido, é um filtro; como o fundo sombrio é um filtro no caos das trevas sem fundo, que se torna, - o caos -, uma abstração. Esta postura barroca explica o teatro de Carmelo Bene: amputando-se os elementos de poder, libera-se a potência; tornam-se distinguidos o que era apenas aturdimento. Se Romeu for amputado, um surpreendente desenvolvimento de Mercuzio se dá. Certas personagens são como que virtualidades, como são virtuais as pequenas percepções não atualizadas das mônadas. Teatro das virtualidades, e da liberdade: “Mercuzio morre rápido em Shakespeare, mas em Carmelo Bene, ele não quer morrer, ele não pode morrer, porque constitui a nova peça”.

Fazer uma aproximação: Beckett e Bene. “Samuel Beckett descreveu o inventário das propriedades a que os sujeitos larvares se entregam com fadiga e paixão”. E: “A subtração dos elementos estáveis do poder liberam uma nova potencialidade do teatro, uma força não representativa sempre em desequilíbrio”. Mas trata-se do que Deleuze chama de sub-representativo, de sínteses passivas - anteriores às formações do indivíduo e do sujeito. Trata-se de Robbe-Grillet, especificamente do texto Djinn, no qual estão presentes todas as grandes questões de Santo Agostinho sobre o tempo em As Confissões. Mergulhamos no grande tema da obra de Deleuze, o acontecimento, que não se confunde com o espaço que lhe serve de lugar nem com o atual presente que passa. O tempo fora do vivido psicológico e das relações físicas dos corpos é o próprio paradoxo, a paixão do pensamento. E o pensador sem paradoxo é como o amante sem paixão: um sujeito medíocre. O tempo sai dos seus eixos: não é mais de Deus nem dos homens, é de si próprio, ao modo da liberdade, que é sempre de si própria. Entramos nos corredores do Djinn, em que não existe mais o presente atual, em que Cronos já não governa mais. Santo Agostinho e Robbe-Grillet constróem a simultaneidade de três pontas do presente: “é a possibilidade de tratar o mundo, a vida, ou simplesmente uma vida, um episódio como único e mesmo acontecimento, que funda a implicação dos presentes. Um acidente vai acontecer, acontece, aconteceu; de modo que, devendo ocorrer, ele não ocorreu, já ocorreu, está ocorrendo”. O pensamento se separa do seu tolo adverso, o bom senso. Pode-se falar em devenires. Trata-se dos devenires; matrimônios contra-natura. Que é o “mundo” anterior ao tempo sucessivo. Devenires contra história; contra dogmas; contra doutrinas; contra a cultura: contracultura. Como exemplo da obra superior de Robbe-Grillet, um pouco da sofisticação barroca, que constrói o seu coração apaixonado e criador. A música vai ser o exemplo. A música é a unidade de vértice, a unidade de cima, é a mais alta das artes - superior a todas as artes. A música desenvolve suas linhas em extensão melódica, a melodia é horizontal; ao mesmo tempo que faz a elevação harmônica, a harmonia é vertical: mas jamais saberemos onde começa a melodia e onde acaba a harmonia. A música parece coincidir com a passagem do tempo, mas não com o tempo que o relógio marca: e sim com a intensidade do tempo que Robbe-Grillet mostra em Djinn. A música mistura, na sua preciosidade, o belo e o sublime - com seu aspecto movente, com sua perpétua ondulação. A música é um conjunto de fenômenos diversos que toma forma e sentido em regiões e níveis diferentes dos corredores inverossímeis do tempo ilimitado e paradoxal.

4ª Aula
Os estóicos dizem que quando os planetas se encontram no mesmo ponto do céu, quando as estrelas refazem seus cursos de maneira idêntica, cada acontecimento do período passado se realiza de novo sem nenhuma diferença. Sócrates e Platão e cada um dos homens existirão uma vez mais com os mesmos amigos, experimentando os mesmos fatos, cometendo os mesmos atos e cada cidade, cada aldeia e cada campo se manifestará da mesma maneira. As coisas, o mundo não se dá uma vez só, mas várias vezes - infinitas. As mesmas coisas que são destruídas pelo fogo divino, retornam da mesma maneira, infinitamente, sem fim. É o infinito do eterno retorno e o limite dos corpos. É o lado dos limites e do infinito, que se congregam, para constituir o reino de Cronos. Nada será diferente do que já passou, mas tudo se passará da mesma maneira e sem nenhuma diferença, até mesmo nos detalhes mais ínfimos, por exemplo, no cruzamento de um gemido com um pequeno foco de luz, que ao se juntarem, comprometem-se pelo infinito afora, como a fogueira que um dia iria queimar, queimou, Averroes, e que Borges, o vidente, afirmou: não a acenda senão ela queimará pela eternidade. Esta teoria, a doutrina do eterno retorno, em que a conflagração queimará tudo e neste incêndio mundial, tudo desaparecerá confundindo-se no fogo original. Mas tudo retornará das cinzas, articulado e ordenado, para cumprir seu destino de infinitude e de limite: o ciclo cósmico jamais cessará: jamais começou, jamais terminará. A periodicidade apresenta uma regularidade sem variação: a tese da identidade entre todos os mundos infinitos não se romperá: e as neves e as chuvas, e as tristezas e as alegrias, serão as mesmas invariavelmente. - Só os corpos existem no espaço e só o presente no tempo. Ambos são limitados, tanto os corpos quanto o presente, por isso os estóicos falam em um presente eterno, infinito mas limitado - e não há como identificar o limitado e o infinito estóico com dois dos gêneros do Filebo,que se aplicam ao modelo platônico, mas jamais a uma terra presa à imanência, conforme o ser estóico. “Não há causas e efeitos entre os corpos: todos os corpos são causas, causas uns em relação aos outros, uns para os outros. A unidade das causas entre si se chama Destino, na extensão do presente cósmico”. Com a posição estóica, colocamo-nos diante de temas tão surpreendentes como o dos futuros contingentes, do argumento dominador, do necessário, do possível e do impossível, da simpatia universal, enfim, do destino e da liberdade: para tudo isto ser compreendido, atravessamos argumentos preguiçosos, causas adjuvantes e causas principais. É neste domínio que estão presentes e dominantes a causalidade física e o princípio de contradição, mas é também neste domínio que surgirão as compatibilidades e as incompatibilidades a-lógicas, as conseqüências não-causais.

Quando a teoria das idéias se constitui, além do fluxo heraclítico perene, de imediato se constitui uma teoria da participação, não, no caso ressaltado - participação do sensível ao inteligível -, mas das idéias entre elas, para se pôr a teoria das idéias em confronto direto com megáricos e cínicos. A filosofia cínica afirma que o que existe é o individual e não o conceito, gênero ou espécie. Antístenes, o cínico, sempre viu bem os cavalos, mas jamais a cavalidade. O princípio de identidade prevalece, e a teoria da participação platônica é inútil. O homem é homem; o Bem é Bem. Só os corpos existem, idéia central da futura escola estóica. O que se refere a Cronos, os corpos com suas tensões, ações e paixões: o presente corporal. Mas algo diferente se insere na filosofia estóica, onde está ausente o limite temporal. Os estóicos são mais megáricos e cínicos do que platônicos e aristotélicos. Eles fazem uma subversão na filosofia, com a inclusão de um extra-ser que constitui o incorporal como entidade não-existente. Sem confusões religiosas com as tolices de almas incorporais ou as confusões das questões psicológicas e lógicas de sujeitos e faculdades com o incorporal. Para ser entendida a inclusão de um extra-ser no mundo da existência, dos corpos, das ações e das paixões, logo das causas, é preciso a ruptura aparentemente impossível da relação causal: separar-se causa e efeito. É desta cisão que emerge a idéia de expressão, que rompe radicalmente com a sinonímia de singulier e de individual. O singular não é uma unidade numérica, nem várias coisas, uma série, como não é um solus distinto de toda a relação. Singularidade é rigorosamente distinta de toda a individualidade. A expressão só forma sentido quando associada ao pré-individual: terra das singularidades nômades e da convergência das séries de singularidades se estendendo sobre linhas ordinárias. A cisão causal produz tal fissura, que do lado do acontecimento, encontramos “um conjunto de correspondências não-causais, formando um conjunto de ecos, de retomadas e de ressonâncias, um sistema de signos, em suma, uma quase-causalidade expressiva, e não uma causalidade necessitante”.

Os acontecimentos-efeitos têm com suas causas físicas uma relação de causalidade, e esta relação é uma expressão; os acontecimentos-efeitos têm entre si uma quase-causa ideal, mas que não é uma relação de causalidade e sim de expressão. O que são essas relações expressivas dos acontecimentos entre si? As perguntas abandonam, seja uma tradição causal, seja a identidade e a contradição: as perguntas agora se envolvem com critérios de compatibilidades ou incompatibilidades. Trata-se do acontecimento, e este nem é lógico, nem é físico: os critérios do acontecimento não se confundem com hormônios, com forças mecânicas, nem com predicados universais e classes lógicas. Eles são, os acontecimentos, confatalia ou inconfatalia - crime de Édipo e a morte de Sócrates como acontecimentos. Conjuncta ou disjuncta.

Deleuze diz que talvez os estóicos não tenham podido conjurar a dupla tentação de retornar à simples causalidade física ou à contradição lógica. Que tenham-se deixado prender aos corpos e às representações. É evidente que tudo isto está em relação com a sobra dos textos estóicos decepcionantes e parciais para o historiador. Mas o que importa é a afirmação de que Leibniz teria sido o primeiro teórico do acontecimento. Fora das causalidades físicas, das contradições lógicas. É preciso ter uma compreensão bem clara quanto aos problemas dos corpos, das causas e das representações, para poder envolver-se com o mundo da expressão, que tem origem na emanação neoplatônica. Além disso, a leitura do anti-cartesianismo de Leibniz e de Espinosa é fundada na teoria da expressão. A insistência deste texto em falar da expressão, algo que ainda não foi exposto em aula como os demais temas, é motivado pela importância que a expressão tomará na explicação que será dada, na passagem do lado causal da cisão, para o lado do efeito. Será mesmo a expressão a mediadora do entendimento.

O universal é o gênero e a espécie, duas entidades lógicas, sujeitas a identidades e contradições; o indivíduo, ou o singular, como era do gosto medieval, sujeito às causalidades físicas, um mecanismo causal físico. Observem-se estas questões no mundo pré-medieval, de Avicena, em sua compreensão do que é essência. A essência pode ser visada sob três aspectos, nas coisas - individualizada, física; no intelecto - universalizada, lógica; e fora das relações que pode ter com as coisas ou com o intelecto: em si mesma. Um duplo enraizamento do que, quando fora do enraizamento, é em si mesma. A essência. Quando se é lógico, fala-se da essência como universal; quando se é físico, fala-se em causalidade. Mas a essência em si mesma pertence à metafísica, que parece referir-se a um mundo novo, nem lógico, nem físico - mas expressivo. O acontecimento, o a-causal, o supra-lógico. A essência metafísica é a singularidade. Duns Scot prolonga Avicena, inclusive rompendo com a individuação negativa pela matéria de Tomás de Aquino, abrindo as vias para uma filosofia da univocidade do ser. Com estes autores, a filosofia ganha em emancipação, e ao modo de um vitral gótico, ganha em beleza. Quando a expressão com Espinosa se destaca na obra de Deleuze, ao ponto de constituir uma linha que reverte inclusive o entendimento do neoplatonismo, em sua doutrina da emanação, junto com ela todo um movimento do pensamento se constitui, a tal ponto que o próprio Leibniz, apontado como filósofo do acontecimento, sobretudo por causa de sua doutrina dos compossíveis e dos incompossíveis, aplicada na Monadologia, revela-se insuficiente. Nicolau de Cusa e Proust confundem-se com as singularidades impessoais, com a metaestabilidade - abrindo um ponto de vista, ou à semelhança da experiência de Kandinsky com sua tela fazendo às vezes da anamorfose, uma nova forma de fazer filosofia, de fazer ciência, de fazer arte, de tirar da vida as tolices cada vez mais insuportáveis do homem vulgar com suas banalidades. A experiência das variedades cinzas e negras da espécie borboleta vai muito além de causalidades hormônicas, de contradições lógicas, ambas secundárias em relação às compatibilidades e as incompatibilidades do acontecimento. Este exemplo, vindo das experiências de Canguilhem e referido aos problemas das proposições hipotéticas dos estóicos, com suas negações dos conseqüentes, permite o acesso à filosofia do acontecimento, o ir além de Cronos - com o saber de que a ciência envolve o acontecimento, e que a pretensão de Deleuze, de algum modo reproduz a de Bergson, que retira a filosofia da posição de reflexão sobre as ciências, fazendo a passagem da inferência para a intuição, dando-lhe autonomia, mas também lhe dando conceitos ressonantes com os funtivos da ciência. A filosofia como ontologia: ontologia dos problemas, das singularidades nômades: quando fazer filosofia é ao mesmo tempo poder evocar as afeccões sensitivas simples componentes das experiências transcendentais, e revelar um íntimo impessoal, íntimo de heteronomia, onde a vida se dá, liberta da prisão do organismo e das funções, distante das figuras e das sub-questões do eu pessoal.

5ª Aula
As relações de Deleuze com Meinong são aparentemente muito pequenas, reduzindo-se a um curto parágrafo na Lógica do Sentido. Mas não é o caso, pois Meinong aparece como exemplo de alta importância para uma das séries da cisão causal: do acontecimento, fora das questões físicas e lógicas, sobre os objetos impossíveis. E para chegar em Meinong, Deleuze faz uma longa passagem, referindo-se a lógicos medievais, sobretudo utilizando-se de texto famoso de Hubert Elie: Le Complexe Significabile; mas também citando Bertrand Russell e seu célebre On Denoting, onde é exposta a teoria das descrições. O parágrafo cuida dos paradoxos do absurdo ou dos objetos impossíveis, dos quais decorre ainda outro paradoxo: as proposições que designam objetos contraditórios têm um sentido. Mas as designações destes objetos são inefetuáveis, logo estas proposições não possuem significação - condição de possibilidade para tal efetuação. A conclusão do texto é de rara beleza, e com poderosa fonte de compreensão para a teoria do acontecimento: se distinguimos duas espécies de seres, o ser do real empírico como matéria das designações e o ser do possível lógico como forma das significações, devemos ainda acrescentar um extra-ser, retomando a linguagem estóica, que define um mínimo comum ao real, ao possível e ao impossível: os impossíveis são os extra-existentes, que não se efetuam, que não ganham existência empírica, nem psicológica, mas insistem na proposição, enquanto insistência não é sinônimo de existência. Evidente: estas afirmações para serem compreendidas e conjugadas à série temporal dos acontecimentos, é preciso uma longa explicação.

Este texto cuida desta longa explicação.

A intencionalidade, a doutrina da intencionalidade, que ganhou notoriedade na filosofia a partir de Husserl, tem suas origens no medieval, e Meinong, quando constrói sua teoria dos objetos, que vai fazer frente à metafísica, busca suas fontes na psicologia de Brentano, toda fundamentada na intencionalidade, que os medievais afirmavam ter duas dimensões: da consciência intencional e do objeto como uma unidade intencional. Destaca-se o fato de que o objeto não é o objeto existente do senso comum, pois este entra em suspensão pela atividade redutora da fenomenologia: a epoché. Não estando em questão o objeto em sua exterioridade material, mas sim o seu sentido - podendo ser dito sua camada de significação - seu ser transcendental. De outro modo, é o objeto menos suas questões existenciais. É uma exclusão do problema da existência, que pertence à metafísica. O domínio de estudo da metafísica, totalidade dos objetos do conhecimento, é o ser enquanto ser. Para Meinong, não obstante a sua grande extensão, a metafísica restringe-se ao que existe, existiu e existirá, que é infinitamente pequena comparada à totalidade dos objetos do conhecimento - evidentemente os objetos intencionais; os puros sentidos. Os noemas, conforme linguagem da fenomenologia. A “teoria dos objetos” de Meinong inclui, em seu mundo noemático, os objetos impossíveis, montanha sem vale, círculo quadrado, matéria inextensa - que são subsumidos pelo conceito de expressão absurda em Husserl. Impossíveis, porque não podem ser efetuados. O possível identificando-se à não-contradição: somente os objetos não contraditórios podem ser efetuados. A teologia medieval se constitui sob este suporte, mas também todo o segredo dos mundos possíveis, e por conseqüência, os compossíveis, de Leibniz, originam-se em um intelecto divino fundado na não-contradição, nos possíveis lógicos. Dos possíveis lógicos à efetuação, à atualização, estaria contido o problema do melhor dos mundos. A questão de Meinong refere-se aos objetos impossíveis: o extra-ser, um dos componentes da cisão causal, como é componente da cisão causal o mundo dos primeiros planos, expressivo, das imagens afetivas de Dreyer - que nos faz mergulhar no ser das intensidades, anterior até às sínteses passivas que dão nascimento ao tempo. O cinema, com sua imagens liberadas das fórmulas da representação construídas nas imagens-ícones de Platão, é, ao modo do pensamento, fora do regime das causalidades físicas e contradições lógicas. Aproximar Dreyer de Meinong; a intensidade afetiva dos rostos dos objetos impossíveis, é absolutamente rigoroso. É uma conjugação das figuras estéticas da arte com os conceitos da filosofia. Mas o pressuposto é o rompimento com o bom senso, e suas banalidades felizes.

Meinong.

A “teoria dos objetos” corresponderia a uma teoria na qual o objeto não existe, mas sua não-existência atual não deve ser confundida com a não existência factual do objeto. Montanha de ouro corresponderia a uma realidade altamente improvável, pelo menos em nosso planeta, mas de modo nenhum cairia dentro do regime dos objetos impossíveis. É da mesma ordem que a do centauro ou do cavalo alado, que, em relação à realidade empírica, é absurda, mas não é absurda em relação à possibilidade pura existencial. No mínimo, o dragão de fogo pode ser construído mentalmente - formar-se uma imagem dele, que é o bastante para riscá-lo da pátria dos objetos impossíveis - dos quais sequer podemos dar uma forma. A existência implica uma forma. Não importando se realizado ou não no mundo empírico, o fato de ter uma forma, retira a montanha de ouro do círculo dos objetos impossíveis. Melhor dito: os centauros são problemáticos empiricamente, mas não trazem questões transcendentais - que são as verdadeiras questões das expressões absurdas.

O círculo quadrado, do qual jamais poderemos constituir uma forma, o exclui em definitivo do campo existencial. A impossibilidade do círculo quadrado, sua absurdidade, é em si - absoluta e incondicionada. Em qualquer situação, o círculo quadrado estará sempre em impossibilidade existencial. Está absolutamente fora da possibilidade existencial. Objeto impossível, inconcebível na série causal, física e lógica. Logo, sua aparição se dá na outra série - na série temporal, que os estóicos nomeiam como sendo a linha aiônica - a do acontecimento, semelhante às linhas de desejo, da plástica barroca, do rosto de Joana D’Arc e de seus cruéis julgadores.

*todas as citações entre aspas foram extraídas da obra de Deleuze.

Publicado no Centro de Estudos Claudio Ulpiano

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