O momento da ação, Aquiles, o grego, Marina Silva, a brasileira
A Guerra de Tróia é cheia de conflitos e tramas paralelas. Um dos combates mais interessantes é o que ocorre entre Heitor e Aquiles. Sabemos todos que Aquiles, pelo menos de certa forma, é bem sucedido no indigitado enfrentamento. Mas por que Aquiles é bem sucedido? Porque Aquiles sabe o momento correto de agir. Os mais atentos dirão que é o destino de Heitor morrer pelas mãos de Aquiles, e que Heitor o sabe, por isso teme morrer, mas como todos sabemos, os gregos precisam estar a altura de seus destinos, para que o previsto possa ocorrer. Aquiles, por estar à altura de seu próprio destino, foi capaz de determinar, sem nenhuma ciência, o momento correto para atirar a sua lança e abater o oponente. Se atirasse a lança um pouco antes, erraria, um pouco depois, poderia ter sido morto, um único instante era o correto para a realização de um destino, exigente para se permitir cumprir. A idéia de estar à altura do próprio destino pode ser vista na desmedida que abate Aquiles. Ao ceder à tentação de vangloriar-se da vitória, esquartejando o corpo de Heitor, amarrando os calcanhares do oponente na biga, passa a ser menor do que o próprio destino, de modo que é morto pelos calcanhares. Assim, para estar diante do destino, e poder realizá-lo, é preciso, sobretudo, conhecer o tempo certo da ação, os gregos o denominavam kairós. A arte, ou sabedoria prática, para a determinação do tempo correto da ação, denomina-se frônesis, a qual pode ser traduzida por prudência. Assim, para se agir conforme o kairós é preciso conhecer a prudência. Essa não é uma virtude, mas é o requisito para que os homens possam agir conforme a virtude. Para a virtude, os gregos estabelecem o requisito de agir conforme a razão, ou seja, a capacidade de ser capaz de encontrar a justa medida, de modo que a felicidade (eudaimonia) seja, no mÃnimo, um respeitoso espectro.
A ministra Marina Silva enfrentou desafio semelhante. A renúncia ao ministério do meio ambiente já era anunciada há algum tempo. O desgaste recorrente com o ministro Mangabeira Unger anunciava a retirada, estratégica, por assim dizer, de uma das grandes retóricas (uso o termo como sinônimo de arte pública da argumentação, e não, como uso da falseabilidade, frente à opinião, do discurso público) do ambientalismo brasileiro. Mas qual seria o momento correto para agir? O partido do presidente aprendeu que na dinâmica da polÃtica não há espaço para bravatas, mas como saber quando agir? Com efeito, se a ministra renunciasse um pouco mais cedo, teria caÃdo por terra todo o prestÃgio que o ambientalismo brasileiro tem conquistado nos últimos tempos, o fato de que foi capaz de suportar pressões um pouco mais, fez com que a atenção pública produzisse expectativa sobre a ação causal; causalidade essa que demorou em se consumar, como um pequeno exército, que todos sabemos que será derrotado, mas que atrasa a derrota, e por isso, pode ser chamado de corajoso. Contudo, se a ministra atrasasse um pouco mais, a opinião pública brasileira, absolutamente vendida à s crenças de que um pouco de destruição não faz mal, vejam os europeus, acabaria por produzir o arauto da mulher teimosa, fora de lugar, e com ignorância eloqüente demais para o posto republicano que ocupa, do outro lado, terÃamos os desejos de grandeza de Mangabeira e o seu discurso de que tudo é possÃvel, desde que se demarque o aproveitamento da criatividade, não aproveitada, do brasileiro. Marina Silva teria sido destruÃda.
O Kairós, de Marina Silva, foi ajudado pela presença da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merck. Porque a voz de nossa ministra Marina Silva, não tão talentosa nas matérias da sofÃstica, uniu-se à voz da lÃder de uma das mais sofisticadas democracias do mundo, onde, inclusive, não existe relação entre ambientalismo e pasmaceira polÃtica, como existe no Brasil. Com efeito, o partido ambientalista alemão existe. Como poucos fenômenos são capazes de suportar o atributo da existência. A guerra da construção do trabalhismo brasileiro acaba por unir também a guerra pela construção de uma democracia ambiental. Não tenho tanta certeza do que a expressão democracia ambiental quer dizer, mas tenho certeza de que o aproveitamento de histerias coletivas, acerca do lucro da soja e da pecuária, nada tem que ver com a democracia ambiental. Porque a associação entre lucro e devastação não é necessária. E quando o momento de interesse acerca da soja e da pecuária for menor, bem como, da possÃvel matriz energética e ambiental do biodiesel, o que nos restará? Um paÃs devastado. Não somos europeus, aquilo que somos está diretamente relacionado com o ambiente que nos suporta, e se subsiste Europa, e Estados Unidos, depois de toda a destruição ambiental, não estou certo que restará algum Brasil. Democracia ambiental sugere respeito ao meio-ambiente onde nossas culturas estão alojadas. Não apenas pela relevância do ambiente para a nossa vida, mas pela relevância que o ambiente preservado, por ele mesmo, importa-nos. Marina Silva, com certeza, está a altura de seu destino.
Escrevi, recentemente, dia 21 de Janeiro, artigo sobre Mangabeira Unger, cujo tÃtulo é Zarathustra ou nova sociabilidade?, para os que desejam ler pode ser encontrado em: http://cesarkiraly.wordpress.com/2008/01/21/zarathustra-ou-nova-sociabilidade/.
Cesar Kiraly (http://cesarkiraly.wordpress.com/)








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