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Daniel Blaufuks

Da fotografia de Daniel ou as dimensões visuais da sociabilidade

Daniel Blaufuks

Apresento, por composição de textos e imagens, a obra de Daniel Blaufuks. Crio essa apresentação para, por fim, remeter a leitura de um pequeno ensaio que escrevi sobre uma de suas séries fotográficas. Apresento para marcar algumas reflexões sobre imagens. Pois, como todos sabem, é preciso ser fisgado por algum lado, tento fisgá-los pelo argumento da relevância, para depois abandoná-los no mundo do interesse afetivo, e, assim, conseguir dizer algo pelos afetos que tornei sistemáticos por meio de tentativas conceituais. Recomendo coragem e ternura, pois as capturas de instantes, de Blaufuks, assim o são, corajosas e ternas.

Daniel Blaufuks

Então, faço disponível o meu ensaio, sobre a série de fotografias “Tomorrow is a long place”, sob promessas de que essas fotografias, fazem-me sentir tanto, ou muito, mas que sempre sinto, por vezes sinto tanto, por tudo o que quero dizer, e por outras, sinto muito, por não conseguir dizer tudo. Eis estão o ensaio e um instante. Porque se fosse para fumar cigarros, o que meus pulmões nem sempre permitem, por uma certa frescura ou fraqueza, seria para fumá-los, sempre, entre os dedos passantes de olhos fechados. E apenas aí: uma certa paz dos instantes cadentes. Da fotografia de Daniel ou as dimensões visuais da sociabilidade.

Primeiro parágrafo de Da fotografia de Daniel:

Quantas dobraduras um lençol suporta? Qual o tamanho do amanhã? E a distância entre a intenção e o feito? Qual a dimensão de loucura entre o pensamento e a voz? Como ditar essas distâncias que não são métricas? Existe uma ciência dos abismos do afeto? A fotografia de Blaufuks fornece alguns elementos para se pensar essas questões. Não porque podemos extrair de suas fotografias uma ciência do abismo dos afetos, essa ciência, evidentemente, não existe, mas porque podemos extrair de suas imagens a fragilidade deliciosa dos instantes. O abismo e o afeto não são sistemáticos. Mas a afirmação da impossibilidade de um sistema nos gera desconforto. Por que não criar modos de dizer aquilo que se apaga na enunciação? A fotografia é um desses modos. Uma ciência do impossível. Capturar instantes, em virtude da natureza fugidia, como se fossem durações. Não se captura instantes. A fotografia é um ensaio de captura. A dimensão de captura da fotografia não é evidente. Precisa ser burilada pela tentativa, sempre em aposta, de uma ciência afetiva das capturas. Quais instantes serão percebidos? Pelo afeto e depois percebidos pela captura. Até aqui fica clara a impossibilidade de uma ciência das capturas e a sua necessidade em agonia. A compossibilidade de uma narrativa dos abismos afetivos e dos instantes luminosos ou cadentes.
 

 Apresentação de Daniel Blaufuks por Ana Ruivo

Daniel BLAUFUKS (1963)

Oriundo de uma família de ascendência judaica, Daniel Blaufuks nasceu em Portugal em 1963. Depois de ter estado na Alemanha durante seis anos, regressou a Lisboa onde frequentou, a partir de 1987, o curso de fotograï¬a do Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co). Já na década de 90, prosseguiu a sua formação no Royal College of Art, em Londres, e no Watermill Center de Nova Iorque. Com um percurso inicial marcado por colaborações, em regime de freelance, em diversas publicações portuguesas (de que se destacam os jornais Independente, Blitz e a revista Marie Claire), distancia-se dos parâmetros então veiculados pelo fotojornalismo, para radicar o seu discurso na intencionalidade da fotograï¬a, progressivamente utilizada como evocativo campo narrativo.

Começa a expor regularmente no início da década de 90 e faz a sua primeira individual na Galeria Ether, depois de receber o “European Kodak Award†(Arles, 1989). Com as séries fotográï¬cas My Tangier (1991), Cinema Paraíso (1991), London Diaries (1994), Uma Viagem a São Petersburgo (1998), Andorra (2000) ou Lisboa, Pessoa, Exílio, Saramago (2001), aï¬rmam-se, progressivamente as características que fundamentam todo o seu universo plástico: a resistência oferecida à tentação de individualizar o assunto da fotograï¬a, optando por sugerir um terreno interpretativo comum que a desvincula de qualquer especiï¬cidade (sendo na sua maioria, fotograï¬as de paisagens urbanas, elas uniï¬cam-se pela sua natureza e não pelas particularidades ilustrativas que revelam); a constituição de um discurso pleno de referências literárias e cinematográï¬cas, entretecidas com a vivência pessoal do autor, assumindo-se este como fotógrafo-andarilho, um road-fotographer que se detém na surpresa dos encontros (com lugares, objectos, pessoas, situações); a transposição do sentido do imediato inerente ao registo fotográï¬co para a inquietante revelação de um tempo que se suspende entre a identiï¬cação do que se vê e o carácter subjectivo do olhar que sobre o objecto repousa; a vontade de, a nível expositivo, ampliar o leque de interpretações que a imagem oferece optando por montagens de valor cenográï¬co evidente ou pelo privilegiar do livro como suporte/corpo de uma (possível) narrativa gerada na relação intra-remissiva entre texto e imagem.

Entre o real e o ï¬ccionado, a citação e a evocação, o trabalho de Daniel Blaufuks vai progressivamente disseminar-se na experimentação da fotograï¬a como extenso campo de possibilidades (perceptivas e operativas). Se, inicialmente, explora as densidades sugeridas pelo uso do preto e branco, com enigmáticos enquadramentos em que a luz deï¬ne diferenciados campos de visão, progressivamente assume a cor como presença dominante em imagens de forte valor pictórico. Na série Tasso, realizada em 1996 e de que a colecção do CAMJAP detém três fotograï¬as, o olhar sobre o objecto dilui-se em jogos de luz e sombra, transparência e opacidade, que se uniformizam sob a inquietante velatura de cor.

A estas tensões surgidas entre o objecto e a sua parcial ocultação, acrescentam-se outras em trabalhos como Collected Short Stories, de 2003. Realizado em resultado da itinerância por oito países distintos, este conjunto de pequenas histórias, registam encontros improváveis num quotidiano urbano. Num jogo de ï¬cções, em parte gerado pela (na) leitura do espectador que se confronta com estes dípticos, Daniel Blaufuks estabelece diálogos entre pares de imagens dissonantes. Obedecendo a uma lógica de montagem e sequência cinematográï¬ca (em muito estabelecida paralelamente aos seus trabalhos em película e vídeo), a sugestão ï¬ccional é potenciada pela pose ou passagem (in)discreta de personagens, por enquadramentos estudados ou ocasionais, gerando similitudes ou distâncias, pelo valor nostálgico que retira cada uma destas imagens do lento discorrer de uma cronologia e antes as situa num tempo de interioridades do fotógrafo e do espectador.

ANA RUIVO  

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