Da fotografia de Daniel ou as dimensões visuais da sociabilidade
Da fotografia de Daniel ou as dimensões visuais da sociabilidade
(Foto Rio – Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro – 2007).
Quantas dobraduras um lençol suporta? Qual o tamanho do amanhã? E a distância entre a intenção e o feito? Qual a dimensão de loucura entre o pensamento e a voz? Como ditar essas distâncias que não são métricas? Existe uma ciência dos abismos do afeto? A fotografia de Blaufuks fornece alguns elementos para se pensar essas questões. Não porque podemos extrair de suas fotografias uma ciência do abismo dos afetos, essa ciência, evidentemente, não existe, mas porque podemos extrair de suas imagens a fragilidade deliciosa dos instantes. O abismo e o afeto não são sistemáticos. Mas a afirmação da impossibilidade de um sistema nos gera desconforto. Por que não criar modos de dizer aquilo que se apaga na enunciação? A fotografia é um desses modos. Uma ciência do impossível. Capturar instantes, em virtude da natureza fugidia, como se fossem durações. Não se captura instantes. A fotografia é um ensaio de captura. A dimensão de captura da fotografia não é evidente. Precisa ser burilada pela tentativa, sempre em aposta, de uma ciência afetiva das capturas. Quais instantes serão percebidos? Pelo afeto e depois percebidos pela captura. Até aqui fica clara a impossibilidade de uma ciência das capturas e a sua necessidade em agonia. A compossibilidade de uma narrativa dos abismos afetivos e dos instantes luminosos ou cadentes.
A fotografia enfrenta dois desafios. 1) Delimitar a localização dos olhos da fotografia. 2) Perceber se esses olhos estabelecem com a imagem relação visual ou táctil. No primeiro, o desafio da fotografia é indicar qual olho prevalece: o do contemplador ou do contemplado, os olhos de fora da fotografia ou os olhos de dentro. No segundo, o desafio é dizer: o olho sente com a visão que vê ou com a visão que toca? Trata-se de uma imagem somente óptica ou há algo a ser tocado? A primeira questão não é somente técnica, mas técnica também, pois o aparecimento da fotografia como um modo artístico legítimo encerra uma série de questões. Dentre as questões abertas pela fotografia está a questão sobre: se esse modo, sobretudo industrial, guarda alguma semelhança com a escultura ou com a pintura. Pois com a fotografia os modos de manipulação se distinguem. Se se podia manipular a matéria (pictórica ou escultórica) para produzir efeitos de luminosidade, na fotografia a manipulação da luz assume outra feição, pois a luz não é produzida, mas sim recebida. Trata-se da manipulação da luz recebida. Não são tintas ou matéria a produzir luz. Na fotografia existe a captação da manipulação de luz ou o embate da luz com a própria luminosidade.
Assim, a questão técnica abre espaço para a questão filosófica: onde se localizam os olhos da fotografia? Pois na tela o contemplador encontra olhos que fitam: o olhar direcionado recebe um olhar de confirmação. O espírito se realiza em cópula. A fotografia não precisa ter olhos internos ao objeto. Alguns modos de fotografia o preservam. A fotografia curiosa de Edgar Degas não tem olhos. E a fotografia nômade de Blaufuks? Na fotografia de Blaufuks os olhos flutuam. Pois não se localizam nem dentro, nem fora, mas se encontram na jornada. A série de fotografias Tomorrow is a long place apresenta esse princípio de deslocamento dos olhos. Antes de comentarmos como esse princípio se realiza na série, vamos comentar o segundo desafio da fotografia.
Os olhos perscrutam ou tocam? Nessa hipótese a resposta deve ser caso a caso. No caso da série Tomorrow is a long place os olhos perscrutam e tocam. São olhos dentro e fora investigativos, bem como, olhos dentro e fora que tateiam. Blaufuks faz desses olhos flutuantes agentes narrativos de uma fábula do contacto. Em algum momento o contacto acontece: os dedos se tocam no entregar e receber o cigarro, a pálpebra se toca olhando para o mais dos pensamentos perdidos, ao mesmo tempo em que toca o som que guia o instante da mão a transferir o fumegante bastonete. Os olhos do garçom tocam as costas da moça oriental, tocam uma certa distração que conta com as costas para repousar o olhar, e o olhar da oriental se perde em olhar sem direção. Os olhos da esgrimista estão mais fora que dentro, porque se obnubilam pela máscara, e se projetam para além da ponta do sabre. Até mesmo a janela com cortinas, ou a paisagem nevada, denunciam alguma forma de olho. As cortinas fazem com que o olho repouse no obstáculo; e na paisagem nevada os olhos se perdem no infinito, olhos nômades, como que perdidos no deserto de gelo.
O deslocamento dos olhos é o princípio que não permite a localização estagnada do dentro ou do fora. O deslocamento dos olhos é o recurso que impõe a dimensão nômade aos olhos, um olhar sempre em diáspora, pois se não move fora, sempre, faz como que a diáspora dos olhos esteja no espírito. Assim, a série Tomorrow is a long place também se questiona sobre os fundamentos de certa sociabilidade possível. Pois à distância entre o pensamento e a voz, e respectivas alucinações, impõe momentos de tensão, de indecidibilidade; mas perguntamos pela voz a que estamos nos referindo, e temos como resposta: a fotografia é a voz em questão. Assim, o intervalo entre o pensamento e a fotografia encerra uma dimensão de loucura, uma loucura que não deve ser resolvida, deve ser suportada. Nos contactos que são delicados, mas que não se resolvem. A paisagem nevada não se resolve em horizonte, mas na completa ausência dele. O rosto da esgrimista não se resolve em possibilidade de enxergar uma face, mas em supressão da luz e reflexo. Como encontrar o tema do fundamento da sociabilidade na série de Blaufuks? Nesses olhos fugidios, nômades, pouco comportados e não judicativos: aqueles que interrompem o olhar único.
O fundamento da sociabilidade – como podemos viver juntos é a pergunta – é questionado pela fotografia, no olhar perdido dos passantes apressados na estação, iluminados apenas por corredores de luz. A sociabilidade é um pequeno feixe delicado. Os mais românticos podem ver um problema na ausência da troca de olhares entre os passantes, podem estar sentidos por não verem um rosto, ou serem vistos, mas o fundamento da sociabilidade, como identificação, é questionado por Blaufuks, porque uma via possível da sociabilidade é a fuga da identificação. Os olhares não se tocam porque visam muitos olhares. Significa que não há olhar? Significa apenas que os olhares judicativos acabam por sofrer de dissolução. Quando não somos capazes de localizar quais os olhos estão dentro, ou fora, bem como, a profundidade dos olhos dentro, ou a diáspora dos olhos de fora, estamos diante de um novo modo de sociabilidade que suporta o nomadismo. Suporte do nomadismo.
A fotografia de Blaufuks, representada em sua série Tomorrow is a long place, questiona o fundamento da sociabilidade de um modo semelhante como faz Anselm Kiefer, em sua tela Lot’s wife de 1989, onde representa linha de trem, onde a origem e a chegada são indeterminadas, e o horizonte azul sofre com a deterioração. Existe também afinidade entre Kiefer e Blaufuks na interrogação sobre a (im)possibilidade do delírio de extermínio, afinidade que é mais evidente nas séries de Blaufuks: Under strange skies e Terezín. O trilho de trem de Kiefer torna indeterminada a proximidade, ou distância, como Blaufuks torna os olhos em presença de deslocamento. O trem encaminha para algum lugar muito próximo de nós, mas ainda assim muito distante, e os olhares que trocamos apontam para a percepção: do dentro perdido ou do fora em deslocamentos. O fundamento da sociabilidade é um olhar que toca. Na literatura, os textos de Primo Levi produzem a mesma sensação, o relato da experiência do lager aproximam da experiência, mas ainda assim, relatos são apenas relatos. A sensação de proximidade com o evento. O espectro, sempre contemporâneo, da supressão das regras. Não nos permite ter experiência do campo, apenas adesão. Os olhos flutuam da mesma forma. Não somos capazes de ver o que esses olhos estão vendo, mas somos capazes de supor onde repousam, mas a nossa suposição esconde infinidade de possibilidades afetivas, estratégias de contacto e abismos perceptivos. Mesmo quando a barreiras impedem os olhos: estamos nos referindo à visualidade social.
Encosta-se à textura dos olhos, verdes, da moça que opera a máquina de copiar. Pois então: a sociabilidade é um olhar dentro, e um olhar fora, um olhar que perscruta, e um olhar que toca, um olho no olho perdido, e perdimento do olho no olho, mas não confundamos a fotografia da Blaufuks com a escolha de todas as opções. A fotografia pode fazer uma escolha apenas. Pode escolher pelos olhos determinados, ou simplesmente pelo fetiche da técnica fotográfica, ou pelo registro de elementos analógicos. Com efeito, a opção de Blaufuks é totalmente de outra ordem. Escolha de todos os elementos. Porque a fotografia, e isso fica claro com a série explorada, deve permitir um passeio de olhos, ainda que os olhos estejam ocultos. Não é uma opção confortável, porque decide enfrentar pelo registro não discursivo da fotografia uma nova dimensão da sociabilidade, que não se faz entender pelos mecanismos próprios à modernidade. A interrogação de um sujeito representado não esgota a temática da sociabilidade, o questionamento sobre o espaço desse sujeito, também não responde à sociabilidade transitória, a interação entre átomos de individualidade tampouco nos ajuda. A sociabilidade deixa de ser material para ser visual. A dimensão visual da sociabilidade não extingue a porção táctil. Mas inaugura, inclusive, uma nova dimensão para o táctil, não são mais as mãos que tocam a sociabilidade, mas os olhos. Blaufuks nos faz perceber que a sociabilidade se realiza em sua visualidade.
Quantas dobraduras um lençol suporta? Como Roland Barthes, com o seu assombro ao perscrutar a fotografia do irmão de Napoleão, nos ajuda a perceber: -estou vendo os olhos que viram o imperador . As dobraduras do lençol sofrem de possibilidade determinada e infinita. Como que diz: - estou vendo os olhos que viram o olhar que deixou a cama. Mas o corpo deixou a cama. Mas posso ver o contorno do corpo que a abandonou. O lado para onde deitou. As marcas do quadril por sobre o lençol branco. Quantas dobraduras? Quantos olhos viram os olhos que viram o imperador? Quantos? A dimensão do assombro, de espanto, indica a proliferação do posicionamento dos olhos, da dimensão de sociabilidade a qual o deslocamento dos olhos permite, a extinção, para o olhar, de uma única localização.
Cesar Kiraly
http://cesarkiraly.opensadorselvagem.org/
Leave a Reply