Posts na categoria ‘poesia’

a velhice não é o atributo

a velhice não é o atributo
de quem vive muito.
mas de quem nasce primeiro.
se me gafanhotam: gafanhoto.
o esquecimento não é atributo
da memória gasta.
mas da memória primeira.
se me gafanhotam: gafanhoto.
a morte não é o atributo
da extinção da vida.
mas do esquecimento da infância.
se me gafanhotam: gafanhoto.
ao desaparecerem os que lembram do que não lembro,
dos meus momentos de infância, [...]

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Primo Levi


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Manoel de Barros

Manoel de Barros
“Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
— Dormir, talvez chorar”.
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde [...]

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Quando sangro sou um outro

Quando sangro sou um outro
Viro esta página em branco.
Aquela? Aquela não. Esta
página em branco.
Minha mão parece que não sabe
mais virar a página ou
pegar a caneta. Minha mão dói.
Parece grande demais para a poesia.
Minha mão era menor. Menor para
escrever poesia. Por isso doía menos.
Poesia para mãos doloridas.
Escrevo poesias para mãos grandes
demais. Mãos sujas de chocolate seco.
O [...]

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Um tanto outro

Um tanto outro
Busquei todos os estilos,
a desagregação da língua,
a agregação lírica, o tea-
tro, os romances, mas
sempre a poesia se impunha.
E minha poesia restou novelesca,
agregadora, desagregadora, teatral…
A minha prosa restou poética,
teatral, novelesca, agregadora,
desagregadora. Na língua. Em sua ponta.
Na pontinha da língua. Com sal.
Como fazem com os de baixa pressão.
talvez, poesia, romance, teatro,
restem debaixo da língua.
Como fazem [...]

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O enciclopedista e o imperador

O enciclopedista e o imperador
O enciclopedista possui como dever de ofício o catálogo absoluto de todos os seres que se correspondam, mesmo que de maneira longínqua, com o seu objeto de estudo. Escrever uma enciclopédia não é simplesmente amontoar dados sobre objetos, mas buscar as correspondências, sejam lá onde elas se encontrem, em um vaso [...]

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