Posts na categoria ‘poesia’

silêncio devorado

silêncio devorado
de todos os seres
de rabuja. o espantalho
se percebe o rabugento destacado.
pombos lhes comeram os olhos.
corvos os bons bocados.
de todos os seres
de matraca. o espantalho
se percebe o mais tagarelado.
pombos lhe comeram a língua.
corvos o amor cantado.
de todos os seres
de rôta. o espantalho
se percebe o mais boca-rotado.
pombos lhe comeram a alma.
corvos o silêncio.
corvos comeram o silêncio [...]

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auto-retrato com agulhas

auto-retrato com agulhas
alegoria dos alfineteiros.
alegria dos alfinetados.
que esse olho que me pisca,
essa perna que me dói,
não o fazem porque desejo.
mas porque me alfinetam
os caracóis.
eu. almofada de alfinetes.
gosto e não gosto das alfinetadas.
sou macio, a comparar-se com
coisas duras, feito pedra, mas duro,
se comparado com coisas macias,
feito bronze. mas as agulhas me
atravessam. porque alegorizo os
alfinetes.
ao acumularem-se as [...]

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um poema: aforismas: respiração

um poema: aforismas: respiração
Nesse exato momento uno a sua respiração a minha. Não importa quão mais velho seja, ou que nasça daqui a cem anos, nesse momento, sua respiração está atada a minha. Não importa não falarmos a mesma língua, ou que leia uma ruim tradução desse texto. Nesse exato momento sua respiração está presa [...]

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Outras epifanias “Claudio Ulpiano”

Para todos aqueles que entendem que o platonismo, ao procurar uma estratégia maior do que o não-ser, encontrou a atividade mais encantadora já promovida pela filosofia, permitir que o não-ser produza ser, ou que fabulações produzam mundos. Aceitar essa estratégia do platonismo não é se confundir com o idealismo ou com a disposição platônica. Mas [...]

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minuscUlisses

minuscUlisses
algumas folhas têm nervuras
outras não.
algumas pessoas têm nervuras
outras não.
alguns sonhos têm nervuras
outros não.
alguns poemas têm nervuras
outros não.
algumas paixões têm nervuras
outras não.
algumas sandices têm nervuras.
sempre.
alguns instantes têm certezas
outros não.
algumas idéias têm certezas
outras não.
alguns cigarros têm certezas
outros não.
algumas canetas têm certezas
outras não.
algumas páginas têm certezas
outras não.
alguns versos têm certezas
outros não.
alguns solfejos têm certezas.
sempre.
algumas mulheres têm pequena
outras não.
algumas [...]

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a velhice não é o atributo

a velhice não é o atributo
de quem vive muito.
mas de quem nasce primeiro.
se me gafanhotam: gafanhoto.
o esquecimento não é atributo
da memória gasta.
mas da memória primeira.
se me gafanhotam: gafanhoto.
a morte não é o atributo
da extinção da vida.
mas do esquecimento da infância.
se me gafanhotam: gafanhoto.
ao desaparecerem os que lembram do que não lembro,
dos meus momentos de infância, [...]

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