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Art Spiegelman apresenta memórias fragmentadas da sua juventude em “Breakdowns”
Sylvain Cypel
Ele adora a seguinte frase de Miles Davis: “Eu vou tocar agora, eu lhes explicarei depois”. O autor de “Maus” (publicado no Brasil pela Cia das Letras)- este extraordinário relato alegórico sobre a shoah, inspirado na deportação do seu pai para Auschwitz - está lançando “Breakdowns”, uma nova história em quadrinhos baseada em desenhos da sua juventude, que traz uma introdução desenhada e um posfácio redigido.
Ele preferiria que os leitores começassem lendo esta nova obra que ele está apresentando no Salão do Livro de Paris (14 a 19 de março). O livro está sendo publicado inicialmente na França, e o seu autor não teria nada a dizer antes do seu lançamento? Bom, ele aceita nos dar uma entrevista de meia-hora… E fica conversando conosco por duas horas e meia. Inesgotável, de uma gentileza infinita, sério como um papa em certos momentos, brincalhão no instante seguinte.
Na verdade, Art Spiegelman gostaria tanto de “explicar”. “Breakdowns” é uma obra “difÃcil, complexa”. Ele teme que os leitores fiquem desorientados. É uma HQ “explodida em pedaços”, remanescente de uma época (1972-1977) na qual, mergulhada nas suas pesquisas, ele publicava desenhos em revistas underground. Nela estão expostas as suas obsessões de juventude, das quais ele nunca se desfez e que “Maus”, a mais narrativa das suas obras, ocultava parcialmente. O que vem a ser um artista? O que vêm a ser o pensamento, a memória, a percepção? Quais relações eles cultivam entre si? “A história em quadrinhos diz respeito mais ao pensamento do que à tinta”, proclama.
Ele nos recebe no seu ateliê em Manhattan, perto da sua casa. “Eu estou saindo muito pouco. Não se pode mais fumar em nenhum lugar!” Sem os seus dois maços cotidianos, ele fica maluco. Ele vincula o puritanismo americano à proibição de fumar, que vai se generalizando até mesmo nos prédios de habitação. Durante os anos 1970, ele havia publicado “Prince Rooster”, um livro para crianças baseado num conto chassÃdico (corrente do judaÃsmo medieval) de autoria de Rabbi Nachman de Breslav. Muitos editores o haviam recusado porque o herói nele aparecia nu. As livrarias colocavam-no na seção para adultos. A combinação de puritanismo com a pornografia, explica Art Spiegelman, é uma especificidade anglo-saxônica. “A nossa cultura popular situa-se em algum lugar entre os seios de Janet Jackson e o clitóris de Paris Hilton”, diz. “Mas, mostrar o pênis de um menino num desenho, isso não pode! Além disso, volta e meia surgem polêmicas aberrantes, sobre as células-tronco ou Darwin, por exemplo”.
Justamente, sobre a pornografia: até então, ela não caracterizava os seus trabalhos. Neste caso especÃfico, ela surge logo na introdução, inspirada na HQ “Little Signs of Passion”, que ele havia desenhado na época para a revista “Young Lust”. Quando ele era criança, o seu pai lhe trazia livros baratos de HQ, violentos e sexy. “Eu gostava disso, muito mesmo. O meu pai não prestava atenção ao seu conteúdo. Nos anos 1970, deparávamos com uma pornografia excelente nas revistas underground. Mas, em “Breakdowns”, o erotismo aparece apenas como parte de uma reflexão sobre o trabalho do desenhista e o olhar do leitor”. Ele nos conta tudo: o pai, a infância, o pensamento, o desenho.
“Breakdowns”, ou a HQ como experiência artÃstica e autobiográfica para este homem de 60 anos. Não há uma história, mas sim fragmentos, esboços, referências maliciosas, que lhe foram inspirados pela revista “Mad”, pelo autor de HQs Robert Crumb, pelo cineasta vanguardista Ken Jacobs, e por todos aqueles que “proporcionaram o seguinte: a arte como experiência do mundo”. Nesta obra, as centelhas surgem para depois retornarem ao essencial. De repente, numa lâmina de quadrinhos dedicada a uma disputa de infância aparentemente de pouca importância, ele está presente, agora já adulto. Chama a atenção o seguinte comentário referente a um desenho: “Em 1968, a minha mãe se matou. Sem deixar um recado sequer. É engraçada a maneira com a qual a mente funciona… Eu tinha “me esquecido” do seu suicÃdio…” Assim como o seu pai, ela havia sobrevivido a Auschwitz.
Não desvendaremos aqui os segredos da obra, pois ele detestaria isso. É preciso deixar o leitor “ler primeiro” como ele se tornou um autor de HQs: as suas expectativas, suas frustrações, seus avanços conceituais. Nela, encontram-se também os esboços de “Maus”, que foram publicados na revista “Funny Aminals” (1972). Art está feliz por ver este livro ser lançado, para mostrar que Spiegelman não se limita apenas à “Maus”. Simultaneamente, ele não procura se desfazer deste último. “Foram treze anos da minha vida”. “Maus” o assombrava antes e continua o assombrando hoje.
Ele fala de Israel, onde ele “mais enfrentou dificuldades” com esta HQ. O livro foi traduzido em trinta lÃnguas, inclusive em pachtun (lÃngua oficial no Afeganistão). Mas apenas o primeiro volume foi publicado em Israel. “Eu tive problemas com a editora”, explica. “Existe uma visão israelense especÃfica do Holocausto. Ora, ‘Maus’ é uma obra de autoria de um judeu da diáspora. O fato de falar da shoah sem se referir a Israel não lhes convinha”. Ele mesmo, nos Estados Unidos, passa por antiisraelense. Ele está farto deste assunto.
“Eu sou ‘a-sionista’, assim como alguém pode ser agnóstico. Eu sou a favor da existência de Israel, mas este Estado cometeu e segue cometendo crimes contra os autóctones. Ele não é o único a fazer isso, mas, e daÃ? Só porque eu sou judeu, eu deveria ser menos crÃtico em relação a Israel do que com o meu próprio paÃs?” Em 2002, ele havia se demitido com estardalhaço da “New Yorker”, a revista na qual ele trabalhava havia dez anos e da qual ele havia contribuÃdo muito para tornar a identidade gráfica mais corrosiva. Ele explica: “Foi para protestar contra a subserviência dos meios de comunicação” ao poder e ao discurso oficial americano no pós 11 de setembro. A sua mulher - que é francesa - continua sendo a diretora artÃstica desta publicação.
Ele prefere retornar rapidamente à s reflexões que estão no cerne de “Breakdowns”. “No fundo, as primeiras HQs são os vitrais das catedrais”. Assim como os vitrais, os ‘comics’ eram forçosamente narrativos. Tendo que lidar com a sua obrigação básica - a página -, a HQ, acrescenta Spiegelman, aparenta-se mais à arquitetura do que à literatura ou ao cinema, nos quais o autor imprime na obra o ritmo que ele bem entende. Ele quis se desvincular desta obrigação. “Isso tem a ver com o meu pai. Eu nunca consegui fazer com que ele me relatasse a sua vida de maneira linear. Ele falava de Auschwitz, passava para uma anedota ocorrida em 1950, e voltava a abordar o gueto antes da deportação”. O relato, a memória, a fragmentação, a estruturação são os conceitos com os quais Art Spiegelman trabalha. “O meu pai mostrou-me como se faz para colocar o maior número de pertences possÃvel dentro de uma mala. Para fugir dos nazistas, era primordial. Ele me ensinou a estruturar um ‘comics’”. Numa lâmina de quadrinhos, nenhum espaço é inútil. “Breakdowns” é incrivelmente denso, tanto no que diz respeito à s referências quanto ao sentido manifesto ou oculto.
Embora ele reivindique pertencer à cultura popular, ele não admite fazer concessão alguma. “Eu quis fazer HQs que pudessem ser lidos com uma marca-página, e não sentado na privada. Se (o cineasta francês) Claude Lanzmann tivesse tido a intenção de fazer um filme para os espectadores, ‘Shoah’ duraria 90 minutos. Ora, este filme dura nove horas, trata-se de uma obra imensa, e isso, sem nenhuma imagem de arquivo”. Este aspecto parece ser essencial para ele. Nós lhe falamos então do (autor espanhol) Jorge Semprún e do seu livro, “A Escritura ou a Vida” (1994). Ele não o conhece. Mas ele confirma: “A ficção não ficcional é mais forte do que o testemunho”. Ele não diz “a realidade”, mas sim a sua transmissão. A proposta de Nicolas Sarkozy de confiar a cada aluno de curso médio a memória de uma criança vÃtima da Shoah lhe parece “equivocada e ingênua”. Ela transforma a Shoah “num videogame”.
Atualmente, Art Spiegelman está trabalhando em dois novos projetos: um livro para crianças e vitrais para uma escola nova-iorquina de belas-artes. “Ser artista é conferir uma forma à quilo que nós pensamos; que nós sabemos e à quilo que nós sentimos”. O fã de HQ agradece.
Tradução: Jean-Yves de Neufville








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