A luta pela filosofia: disposições políticas
Após um bom tempo de lutas e de golpes, como o impingido pelo Estado de São Paulo, ao tornar a filosofia e a sociologia opcionais, finalmente: filosofia e sociologia foram vitoriosas. Todas as séries do ensino médio do país, inclusive do Estado de São Paulo, devem estudar filosofia e sociologia. Se tomarmos como princípio o fato de que a filosofia é o discurso conceitual de onde surgem todas as justificativas de serventia das disciplinas, parece estranho que tenhamos ficado tanto tempo sem ela. Poderíamos dizer, sem medo de errar, que durante um bom tempo estivemos a praticar atividades sem a menor desconfiança acerca do significado delas. Como o nosso conhecimento não está fundado em cosmologias ou em visões de mundo fundadas na idéia de equilíbrio, mas sim na investigação e na criação de conceitos, ou seja, somos uma cultura filosófica, estivemos chafurdados na cegueira. A filosofia é fetiche do filósofo profissional, os textos clássicos, os originais, o conhecimento do grego, as implicações terminológicas, tudo isso é um delicioso fetiche para o filósofo profissional, contudo também é fundamento dos saberes que fomos inventando na medida em que os objetos de investigação demandavam. A invenção do sentido dos objetos de estudo é uma invenção filosófica: e esse enunciado é verdadeiro para a psicologia, para história, para a lingüística, para a sociologia, para a antropologia e para a política, para ficarmos apenas nas convencionadas humanidades. Assim, estudamos durante um bom tempo uma série de objetos sem saber o como de suas invenções. Por isso, talvez, possamos explicar o quão pouco criativos fomos capazes de ser em quase todas esses regimes discursivos. Nós quem, oras bolas? Nós que nos denominamos brasileiros. Aqueles que são provenientes de um monte de lugares diferentes, ou que são daqui mesmo, mas que foram desambientados, aqueles que falam o português daqui.
O português não é uma língua filosófica, não que não possua largamente todos os mecanismos necessários para constituir uma filosofia, mas é uma língua que não produziu uma filosofia original. A filosofia não possui nacionalidade, o ambiente miscigenado grego, e as múltiplas influências, bem o comprovam. Mas a filosofia possui um “ser tomada de assalto”. O que significa se apropriar dos mecanismos da invenção de conceitos e produzir uma língua capaz de dizer mais do que ela está preparada para dizer; a filosofia implica numa reinvenção da língua em virtude das necessidades inventivas do conceito. Pois, se nos apropriamos de nossa língua em virtude dos delírios fabulosos da poesia, e o fizemos muito bem, apesar da preguiça contemporânea, não o fizemos para a filosofia. Claro que poderão se levantar multidões de ofendidos acerca das minhas afirmativas, os defensores de Farias de Brito, dos grandes pensadores do Brasil. Mas sabemos que estou a dizer a verdade. Se a linguagem é uma asa alfinetada, ainda, em matéria filosófica, estamos com as duas asas, ou almas, alfinetadas. O catolicismo brasileiro, a influência do tomismo e a ditadura militar não explicam completamente o porquê de não sermos ousados na invenção de conceitos. Claro que a crença de que a filosofia é coisa de padre prejudica um pouco, claro que a percepção de que educação é educação para o mercado de trabalho, ou que educação é educação técnica é um problema, evidente que a perseguição ao pensamento em virtude da repressão política nos atrapalhou e atrapalha. Mas a captura que os filósofos acadêmicos exerceram sobre a filosofia no Brasil, essa sim, porventura, seja o nosso maior problema. A idéia de que a filosofia não responde questões, mas que responde sempre a si própria, produz o mal estar fisiológico ao ouvirmos o início de uma reflexão em português. Um velho filósofo austríaco, de nome Sigmund Freud, guardava uma série de comentários elogiosos à filosofia, dentre eles, que participaria de um núcleo tão diminuto de pessoas, o que tornaria o interesse quase impossível. E olha que o número de leitores da Viena de Freud era bastante considerável e o preparo educacional invejável (exterminadas, ou emigradas, quase todas com o holocausto). No Brasil não se pode falar em elitização da filosofia, porque nunca se viu alguma coisa diferente disso, ou se percebe filosofia nenhuma, ou filosofia acadêmica. É o caso de se produzir uma filosofia com o rigor da história da filosofia, mas com a inventividade daqueles que se apoderam dos modos de dizer. Apropriação rigorosa do estudo dos conceitos, não enquanto peças no museu de cera das coisas que não mais servem, mas como plasticidades que respondem questionamentos.
Não temos professores de filosofia para criar essa nova língua. O modelo educacional da filosofia produz investigadores estéreis. Não é sem importância o fato de que Roberto Machado, há alguns anos, advertiu que o modelo de ensino da filosofia USP não permite o desconforto que exige a criação. O modelo USP, para Machado, acaba por provocar o desconforto do guardador de um museu de cera. Possui muita coisa para dizer, e possui toda a imagem diante de si, mas falar é alguma coisa de infértil: bonecos de cera não pensam.
Cesar Kiraly
(http://cesarkiraly.wordpress.com/)








on Jun 9th, 2008 at 3:33 am
Falta algo de coragem.
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on Jun 10th, 2008 at 3:10 pm
Olá Sblargh,
concordo plenamente, apenas discordo na ênfase: FALTA MUITO DE CORAGEM. Outros campos, tenho pensado na antropologia, em virtude da proximidade com a filosofia - que a filosofia, no Brasil, não consegue ter - produziram belas invenções. A sociologia e a teoria literária também. Apenas, e estou sendo dramático, a filosofia no Brasil se mantém longe, tão longe, do aspecto inventivo.
Um abraço e gostei do seu blog,
Cesar
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on Jun 18th, 2008 at 5:49 am
Olá, Cesar Kiraly!
Conheci seu blog através de um amigo, que também já comentou muito por aqui (Rodrigo - Fuego, do blog Manu Fuego).
Gosto do material que você publica e pretendo passar aqui mais rotineiramente, para sempre manter o cérebro lubrificado.
Em específico este artigo, por ti escrito, muito me chamou atenção, pois sou recém-formado em Ciências Sociais pela PUC-SP e me graduei com licenciatura plena, além do Bacharelado. E realmente, hei de concordar que por séculos, para não dizer apenas décadas (desde que sociologia e filosofia estiveram afastadas do currículo básico do ensino), o homem brasileiro deixou de pensar criativamente sua vida. Não deixou de criar mecanismos de expressão, como a literatura e a música, aliás, ambas são muito fortes e reconhecidas não somente aqui, mas lá fora também. Porém, a vida deixou de ser pensada, repensada, problematizada e parece ter se congelado em meio a problemas e categorias clássicas que, como você bem ressaltou, deixamos até de ver a conexão entre nossos saberes e a origem destes saberes.
A capacidade inventiva que muito nos falta, acredito que, inversamente ao que você diz no seu comentário-resposta para “Sblargh”, a Sociologia e a Antropologia (a Ciência Política também) estão presas nessa mesma situação. Nada se inventa, nada se desconstrói, muito menos se destrói. E, nisso, como diz o sociólogo Zygmunt Bauman, acabamos em uma realidade líquida, sem termos onde nos apoiar, e parece que abandonamos o que, para mim, é o princípio criador dentre todos os saberes humanos, inclusive a própria filosofia: A DÚVIDA. Sem a dúvida, não há criação, questionamento, intervenção e “evolução” (enquanto transformação e apontamento para um novo e, talvez, distante destino e fim).
E, também por isso, como você disse, “ou se percebe filosofia nenhuma, ou filosofia acadêmica”.
Bom, acho que é isso.
Tenho três blogs e, se lhe for interessante, gostaria de dividir com você estes espaços.
Um é apenas um blog pessoal, no qual pouco escrevo algumas reflexões do dia-a-dia que julgo mais importantes pros momentos.
http://giveitrevolution.blogspot.com
Outro é um blog-acervo, no qual publico material de pesquisa e trabalhos acadêmicos de amigos e conhecidos da área de Ciências Sociais e afins.
http://tcc-facsoc.blogspot.com
E, por fim, o terceiro e mais recém criado blog no qual escrevo é um blog dedicado a uma paixão que alimento pelo futebol, chamada São Paulo FC (rs).
http://bibliatricolor.blogspot.com
Espero que eu tenha dito algo coerente e contundente, e que, de alguma forma, ajude a repensarmos o papel da filosofia e da sociologia que, agora, assumiremos no Ensino Médio.
Por fim, belo texto, parabéns!
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on Jun 19th, 2008 at 11:54 pm
“O português não é uma língua filosófica”
Fiquei surpreendido, pareceu-me ao primeiro olhar uma afirmação bastante contundente, sobretudo porque o senhor professor não fez qualquer comparação com paradigmas semelhantes.
Quais são, então, as línguas vivas que merecem serem catalogadas como filosóficas no mundo de hoje? Tem acaso o espanhol uma tradição filosófica contemporânea maior e mais sólida do que a da língua portuguesa - Balmes, Unamuno, Ortega y Gasset, Zubiri.. Gustavo Bueno ou mesmo Fernando Savater, talvez? - que possa conferir a essa língua o título de “filosófica”? eu tenho as minhas dúvidas…
amistosamente,
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on Jun 20th, 2008 at 8:05 am
Bruno,
muito obrigado por seus comentários. Penso que concordo com você. Contudo, atribui inventividade para a ciência política, antropologia etc. que não atribui à filosofia pela seguinte razão (e isso não tem que ver com as disciplinas, mas com os pensadores, que na verdade são filósofos, os quais acabam por receber a denominação de seus departamentos de trabalho): a estrutura dos trabalhos em autores, o trabalho do especialista, acaba por educar (???) o filósofo profissional a pensar segundo cânones referenciados, limitando em muito a sua liberdade com o dizer. Contudo, outras disciplinas, pelo estudo da filosofia, e distância do modo de trabalho convencionado, no Brasil, a ser chamado de filosófico, acabam por obrigar a linguagem a dizer, não pela burocracia, mas pela expressão. Alguns nomes me ocorrem: Joel Birman na psicanálise, Viveiros de Castro na antropologia, Renato Lessa na ciência política etc. Pensadores fundamentalmente filosóficos, mas que pela liberdade de prescindir do trabalho do especialista, e esses, os citados, são profundos conhecedores da história da filosofia, acabam por tornar a linguagem alguma coisa que diz o possível.
Parabéns pelos seus blogs: recomendo a visitação de todos…
Um abraço,
Cesar
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on Jun 20th, 2008 at 8:26 am
Ricard,
muito obrigado pelos seus comentários. Não sei se dei a entender que julgava necessária a nacionalização da filosofia. Porque não acredito na nacionalização da filosofia. No entre guerras era muito comum ver grandes pensadores a realçar as características nacionais de suas filosofias, veja o texto do Victor Delbos sobre Spinoza, de modo a evidenciar suposta autonomia dos modos de pensar, e inclusive um estilo profundamente, ou pretensamente, arraigado na cultura, no espírito, ou coisa que o valha. Não faço comparações porque não penso que sejam importantes. Porque o meu problema não é que não existe filosofia em português, porque ela efetivamente existe, inclusive no português do Brasil, mas que o nosso português, e isso nada tem que ver com a língua; tem sido pouco forçado a dizer mais do que uma língua está pronta a dizer. Penso que isso tem a ver com a invenção de um estilo, inafastável da enunciação filosófica, talvez a produção de um vocabulário. Creio que Hume inventa uma filosofia e um corpo filosófico para o dizer. E isso não tem que ver com o inglês, mas com o enfrentamento aos limites do dizer. Penso que as tradições fenomenológicas, na França e na Alemanha, fizeram o mesmo. Não existe algum estatuto que permita conferir títulos a línguas ou títulos de filosofia a países ou honras a nacionalidades. Mas julgo que podemos conferir estado acabrunhado pela falta do dizer. O dizer em filosofia não depende da língua. A língua que consegue inventar não é língua nacional, mas filosofia. A língua que não consegue se inventar é apenas uma língua nacional. Quando digo que o português não é uma língua filosófica quero dizer que o português é apenas o português, pois se se fizesse língua filosófica não seria língua alguma, mas enunciação de um pensamento. Por isso, a ausência de comparações. Até porque é inegável a força de filósofos como Fernando Gil e José Gil. Inventores de uma língua: pronta para o dizer. No espanhol conheço pouco, Ortega y Gasset, talvez, Ferrater Mora, pode ser, mas se são apenas espanhóis, falando espanhol, estão, ainda, aquém do pensamento. Mas a filosofia universitária deixa marcas profundas na nossa timidez. Talvez, ainda precisemos descobrir que temos uma língua, capaz de dizer a expressão, para depois transformá-la em língua alguma, ou seja, pensamento. Não é a toa que os militares exaltavam “a alta literatura brasileira”. Porque a grande literatura não tem predicados é apenas literatura. A nossa filosofia está carecendo de um predicado, para poder se livrar dele. Mas, para isso, deveremos nos livrar do desconforto fisiológico que sentimos ao ver a nossa língua dizendo mais do que pode, fazendo de um modo estranho. Como ensinar a tolerância à criação?
Um abraço,
Cesar Kiraly
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