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Anselm Kiefer: Melancolias

o sofrimento dos poemas

poemas sofrem da
necessidade de
bordas irregulares.

esta borda.
        esta borda.
  esta borda.
              esta borda.
          esta borda.
                   esta borda.

Variações sobre o artigo de Paulo Herkenhoff em defesa de Carolina da Mota

Poucas pessoas gostaram da última curadoria da Bienal de São Paulo. Por cinismo gostei mais das discussões do que da curadoria. O gosto, sob algumas alterações conceituais, ainda consiste numa categoria importante para se discutir artes visuais, mas, nesse caso específico, não creio que deve ser invocado. Para todos os efeitos a discussão em torno da última Bienal se tornou mais política do que artística. Mas a arte não tem que ver com política, com sociabilidade? Penso que sim, mas creio que estamos diante de alguns problemas de ordem sumamente institucional. Pensar em instituições de arte é alguma coisa mais complicada do que pensar em instituições políticas tout court, porque nas instituições de arte o elemento essencial das instituições surge num estado de vociferância não aplacado pela idéia de tradição. Esse elemento de vociferância, presente em todas os modos institucionais, contudo bastante vívido nas instituições de arte, consiste no fato de que nas institucionais da arte temos a clara dimensão de que as ações humanas de instituir são marcações de significações sobre o tempo.

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uma queimadura

uma queimadura

da leitura surge a necessidade
de marcar as páginas com canetas
pretas ou azuis. escolho a marca azul.
apenas ela. mas algo na escritura me engana.
e percebo que o risco preto foi mais esperto. mais veloz.
não tenho como voltar atrás. desmarcá-lo.
finjo que é o risco certo. lhe forneço alguma convicção.
para que as marcas que produzo.
não cheguem a me desapontar.

a vontade é marcar a página. bem no canto.
com o meu cigarro aceso. a vontade é marcar bem no canto.
o que não seria marca. mas queimadura. daquelas das imagens que fervem.
devo marcar a queimadura com o cigarro novo (?) com o cigarro velho (?)
então façamos como quem luta contra o sono.
queimemos um pouco esse livro. para encontrar a minha mão.
por detrás das páginas brancas puras.
e marcados seremos. a minha mão. e a minha página.

Freud: pensador do político

No mês de Novembro tive a oportunidade de organizar o evento Freud:Pensador do Político. Duas conferências tiveram abrigo: uma de Renato Lessa, cientista político e professor do IUPERJ e uma de Joel Birman, psicanalista e professor da UERJ. Além da evidente importância dos conferencistas o evento exerceu certa semiótica: um retorno da ciência política para pensar a psicanálise e uma nova abertura da psicanálise para pensar a política. Desde os freudo-marxistas e a escola de Frankfurt não existe esforço sistemático para se atar a psicanálise à política; esse evento que teremos a oportunidade de ver alguns excertos, representa a renovação do esforço em novas e criativas fundações. Do evento foram produzidos 7 excertos que também podem ser encontrados no endereço: www.youtube.com/estudoshumeanos.

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tocado pela delicadeza da imagem

Não sem interesse cem anos atrás nascia Lévi-Strauss em Novembro de 1908. Hoje, cem anos depois, completa um ano O Pensador Selvagem. No mesmo espírito do O Pensamento Selvagem existem muitas formas de pensamento distintas abrigadas sob a mesma proposta. Assim, não cometerei o crime do ocidente filosófico, não abrigarei sob categorias muito amplas elementos que devem ser plenificados pelo singular. Por isso, darei de presente ao grupo de pensadores que abriga a minha coluna e o meu blog uma pequena distinção, corrigindo crimes cometidos pela filosofia, mas resguardando a força da capacidade de pensar por conceitos. Farei uma pequena distinção entre o pensador selvagem e o pensamento selvagem, não uma distinção entre as obras, mas uma distinção entre a acepção conceitual desses nomes.

Leia esse artigo na íntegra na minha coluna Outros Critérios, clique aqui.

Wittgenstein: o teatrinho

Como diria meu querido amigo Asterix: “são loucos esses bretões”. Pois bem, não conheço outra investida, cuja infelicidade não deixa de ser assustadora, de explicar um conceito filosófico sob a forma de teatrinho: temos um teatro ruim e explicação da pior categoria. Contudo, e devo dizer que estou a ser sincero, consegui dar algumas risadas com os enraivecimentos do ator que brinca de Wittgenstein, bem como, com a gravatinha azul do personagem Russel. A risada é o patrimônio mais delicado da humanidade, claro que não me refiro ao escárnio, mas às boas risadas. Aquelas que os atores devem ter dado ao entrar em contato com alguns dos absurdos da filosofia. O dizer, para todos os efeitos, é uma brincadeira de claro e escuro.

parte 2

parte 3

O nascimento cético da ciência política e a investigação da natureza humana

Ensaio publicado pela Associação Portuguesa de Ciência Política. Para ler na íntegra, clique aqui.

Natureza Humana e investigação

A ciência política remonta o seu surgimento à obra de Maquiavel . E sua consolidação com o desenvolvimento de mecanismos quantitativos pela academia norte-americana. Como se Maquiavel houvesse posto os fundamentos, e a arguta capacidade de mensurar, houvesse posto a determinação dos fatos. Assim, o fazer teórico da ciência política, a despeito das discussões ideológicas, resta idêntico a sua capacidade de descrever e desenvolver argumentos que expliquem relações de regularidade. A vida política como ela é: para que seja conhecida: deve ser identificada por instrumentos de interrogação da realidade, fundados em regras, haja vista que percebemos, desde Maquiavel, a vida política como deve ser é diferente da vida política como verdadeiramente se apresenta. Ao cientista político cabe a descrição e mensuração da vida como ela verdadeiramente se apresenta.
Este primeiro parágrafo, acima, consiste em simplificação brutal. Cabe-nos indagar: a simplificação é apenas uma estratégia retórica do expositor, ou é fruto de um processo mais complicado nas disposições da ciência política? Na verdade são explorados os dois recursos. Expor a simplicidade da organização da ciência política serve, dentre outras coisas, para mostrar o procedimento de mera atualização quantitativa, suportado pela simplificação teórica, sendo o limitador mais explícito a redução da teoria da política a prática da justificação de modos de causalidade, portanto: de regularidades.
Assim, este artigo parte da seguinte hipótese: duas disposições básicas podem ser encontradas na ciência política contemporânea, ambas resultado dos modos de leitura da tradição da filosofia política: (1) a miniaturização do fenômeno político e (2) o minimalismo do fenômeno político. Essas duas disposições são formadas em virtude do conceito de natureza humana (ainda que a terminologia da natureza humana não seja usada por vários setores da ciência política, não é demais falar, concepções antropológicas estão sempre presentes): (1) a natureza humana como miniatura (opção teórica para simplificar os modos descritivos e determinar a regularidade das ações) e (2) a natureza humana descrita como minimalismo .
A disposição da miniaturização da natureza humana é a mais habitual na teoria política contemporânea. Pode ser encontrada em argumentos como: (1) supondo a existência de um momento onde os participantes podem celebrar contratos sociais: ignorantes de suas posições na sociedade (ou exercício de poder): construamos as bases de uma sociedade justa, (2) supondo que os homens realizam ações apenas em escolhas racionais, construamos teoria política que seja capaz de prever a opção dos jogadores e (3) supondo que podemos descrever crenças sem o remetimento a paixões, estabeleçamos regularidades fundadas nessas disposições. Os três tipos de argumento apelam, para o recurso formal de suas teorias, à simplificação dos fenômenos. Pequenas cegueiras parciais para sermos capazes de explicar fenômenos. Com efeito, oferecimento de doses moderadas, e manipuladas, de miopia e de hipermetropia para a construção de argumentos teóricos que expliquem (e criem) regularidades.
A disposição minimalista (minoritária) não faz concessões na intrincada relação entre paixões, entendimento e crenças. Contudo, afasta-se da tábua de valores e sentimentos (característica de alguns pensadores do século XVIII, como Adam Smith, e instrumento de fenomenólogos) por entender que essa é muito mais um recurso idealista do que uma disposição conceitual orientada à experiência. Assim, os argumentos miniaturistas são rejeitados. Por outro lado, a posição minimalista não adere à opacidade da natureza humana, percebida em argumentos idealistas ou teleológicos. A disposição do minimalismo está em perceber características mínimas na composição das crenças, em suas relações, constantes, com as paixões e os sentimentos, firmando a descrição possível de regularidades.
Se a ciência política possui o seu fundamento na habilidade de Maquiavel em descrever, de modo indutivo, fenômenos políticos, também encontra abrigo no tipo de concepção antropológica subsidiária aos seus textos. Mas a simplicidade antropológica, ou o seu esvaziamento, não é uma característica maquiaveliana. O que nos levaria a crer que a fundação da ciência política poderia ser resgatada, no sentido do minimalismo, se a complexidade dos tipos antropológicos de Maquiavel fosse resgatada. Essa tarefa verdadeiramente se impõe. Mas não é suficiente. A obra de Maquiavel constitui uma paternidade parcial para a ciência política. Pois, aquilo que denominamos ciência política é sustentado pelo tripé: (1) percepção da crença (independentemente da extensão fornecida ao conceito de crença), (2) descrição de regularidades e (3) formulação de princípios (ainda que com vigência parcial). Maquiavel preenche os dois primeiros itens deste elenco, mas não se preocupa com o terceiro. Assim, pode lhe ser atribuída apenas uma paternidade parcial. Pois inaugura a percepção das crenças na investigação política, basta a leitura dos Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio para apercebê-lo, ou atentar para o papel da opinião e dos sentimentos nas estratégias de condução do poder, nas manobras da virtù, no O Príncipe. Contudo, como o indica Lessa, o indutivismo de Maquiavel não tem como objetivo firmar verdades gerais, pois o particularismo engenhoso da natureza humana, escapa a qualquer tentativa de formulação de verdades gerais, seja qual for a duração e a falibilidade do princípio . Para Maquiavel os princípios não são falíveis, os princípios são, de direito, impossíveis e, portanto, quimeras.
Cabe-nos indagar, em termos da filosofia política, quando, efetivamente, surge a possibilidade de uma ciência da política e quais os modos de expressão de seus elementos constitutivos. Esse problema não é historiográfico, ou de mero uso da expressão “ciência política”, trata-se de uma questão de percepção formal dos elementos que nos permitem chamar, determinada forma de descrição de fenômenos públicos, de ciência da política. Parece-nos que a possibilidade de tal denominação é possível quando: crença, regras e princípios estão presentes em um mesmo discurso. Hume, no ensaio Que a Política Pode Ser Reduzida a Uma Ciência, não parece perceber a sua invenção, mas os três elementos necessários, para uma ciência da política, estão presentes.
Diante de nós a experiência política (a história de Florença vista pelos olhos de Maquiavel ou a história da Inglaterra vista por Hume) mostra, agudamente, a seguinte imagem do pensamento: mundo absolutamente fragmentado, solto em átomos sociais, cujas trajetórias são dominadas pelo acaso. Mundo social onde pensamento e poder parecem divergir completamente: (daí o ceticismo de Hume quanto à efetividade do rebatimento, do pensamento filosófico e político, sobre as instituições e a absoluta falta de crédito, dada por Maquiavel, às idéias abstratas) uma outra habilidade que não a reflexão é demandada para os negócios públicos. Para essa imagem do pensamento, na experiência política, Maquiavel e Hume possuem diagnósticos distintos, muito embora muito parecidos em uma série de aspectos, mas que faz de Hume o detentor da paternidade completa da ciência política. Daí falarmos do nascimento cético da ciência política. Maquiavel e Hume possuem grandes obras como historiadores (a proximidade entre a historiografia e a ciência política é evidente: pensemos em Tocqueville), mas a historiografia indutiva não os satisfaz. Ainda no terreno da indução Maquiavel produz hipóteses sobre a ação da natureza humana da história (tensão entre virtù e fortuna), mas não se permite a produção de idéias gerais. Hume, por outro lado, em função de arguta crítica à idéia de indução, se permite, sem deixar de ser cético, perceber que alguns elementos da história política, na experiência, possibilitam a formação de princípios gerais .
Enquanto Hume enuncia os elementos formais de uma ciência da política, dando a essa o seu nascimento, ele mesmo nunca fez ciência política, senão em comentários bastante acidentais. Hume se dedica, quanto à política, a pensar em termos filosóficos, onde a instituição é um dos elementos a serem interrogados. Ao passo que Maquiavel, sem ter enunciado, ou apresentado, os elementos de uma ciência da política, de fato, a empreendeu, pois a sua concepção de natureza humana está dirigida para a ação nas instituições que conhece.
Conduto, a ausência de princípios na obra de Maquiavel não compromete apenas esse último elemento de uma ciência da política, mas também acaba por reverberar na crença e na regularidade. Porque a idéia de crença depende de uma concepção de natureza humana. A natureza humana, sem princípios onde a sua estrutura possa encontrar rebatimento, acaba por se tornar insulada. Não se pode dizer, com efeito, se Maquiavel está mais próximo de uma concepção miniaturista ou minimalista, para tanto, dependeríamos de saber o tipo de rebatimento que a concepção de natureza humana realiza nos princípios políticos. Por certo, Hume encontra-se do lado do minimalismo da natureza humana.

para ler o ensaio na íntegra, clique aqui.

tratos à bola: verdades

Podemos gerar à nossa vontade volumes de verdades de confiança desde que não atendamos à sua importância; a tabuada é inesgotável, e as verdades empíricas abundantes.

Nelson Goodman

O pensador (pensamento) selvagem

A relação entre O Pensador Selvagem, título do portal que abriga esse blog e outros tantos, bem como, uma revista seriada com vários temas, e O Pensamento Selvagem do Lévi-Strauss é bastante evidente. A idéia do velho antropólogo era dizer que o modo pelo qual os selvagens pensavam era um pensamento. O apelo ao indutivismo, os modos reservados de generalização e analogia não eram acaso, ou, muito menos, demonstração de pensar sem pensamento, mas um modo específico de pensar, cujas estruturas lógicas eram finamente construídas. O bom pensador – o primeiro dos pensadores selvagens – está a soprar velinhas. Completa, se não me engano, 100 anos. Por isso, torno pública, para os meus leitores, uma entrevista, recentemente impressa na Folha de São Paulo, do antropólogo Viveiros de Castro – de quem publiquei, aqui, um ensaio bastante interessante sobre Deleuze – acerca do pensamento selvagem de Claude Lévi-Strauss. Para ler a entrevista, clique aqui.

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